Fogon

 

A Gilberto Mitchell, botafoguense, falecido a 2 de novembro de 2017

 

Pois a vida é assim.

Saía eu do banco ou do mercado ou de algum lugar, desses comuns, cotidianos, e caminhava para casa, quando um amigo me escreve. Celular, claro. Meu amigo botafoguense, aliviado por ter concluído o mestrado e preocupado com as eleições vindouras ou com a situação política ou com os atrasos no pagamento do salário ou com outros fluxos da vida. Aliviado, preocupado e ansioso, porque se é verdade que tinha anunciado não ir ao clássico Botafogo x Vasco, final do Campeonato Carioca, é também verdade que sua namorada, tricolor como eu, fez a bondade plena de comprar os ingressos e dar essa alegria – mesmo que seja uma alegria passível de imensa tristeza – de estar presente numa final.

A mensagem dele comunicava não a compra dos ingressos, algo de que eu já sabia, mas a sobra de um terceiro ingresso, que seria dado a um jovem, adolescente mesmo, filho de uma amiga dele – dos tempos da nossa adolescência. Essa sobra caía no meu colo, caso eu aceitasse, e sabe ele, sabe a humanidade, me oferecer ingresso para um jogo é uma sedução baixa, uma cantada reles, porque vou, vou de qualquer jeito, vou a pé se preciso, mas vou.

E fui, para cumprir meu jogo 762 na carreira e o primeiro no Maracanã nesse ano de 2018. 62, diria qualquer bom botafoguense, indica que o título estava mais do que escrito, porque é o ano de Garrincha e a Copa do Mundo no Chile. Também a piada, sabemos, estava escrita: três pessoas vão juntas a um jogo do Botafogo, final contra o Vasco, e duas dessas três, ou seja, 66,6%, torcem para o Fluminense. [Fãs de heavy metal ou adoradores religiosos lembrarão o quanto pesa a sequência numérica]

Entramos relativamente cedo, e pudemos ouvir a bandinha da Guarda Municipal, algo que nunca sabemos de crônico ou anacrônico nas finais de campeonato estadual. Mas se me perguntarem, direi sem hesitar: só me lembro da bandinha, que não era da Guarda Municipal, no Fla x Flu de 1995, gol de barriga do Renato Gaúcho. Ela desenhou até mesmo a abreviatura do clássico, com os corpos dos músicos. Vinte e três anos depois, a coisa era mais humilde, embora chata do mesmo jeito – com todo o respeito às bandinhas desse imenso país.

O jogo foi o que foi, com a precoce expulsão do imaturo Fabrício, que, entre tanta coisa na vida, fizera o gol da vitória vascaína sobre o Fluminense, nas semifinais. 3×2, comemorado aos 49 minutos do segundo tempo. Um verdadeiro show de passes errados, que nem o velho nervosismo das finais pode justificar. Um Botafogo que cuidou muito bem de si, embora tivesse que vencer a partida.

O segundo tempo viu o Botafogo, frágil, mas nas jogadas que convinham, tentar o gol: Pimpão aberto num lado, Leo Valência no outro, e Kieza, que entrara no intervalo, fazendo dupla de centro-avante com Brenner. Para não deixar de ter drama botafoguense: das três substituições feitas por Valentin, duas foram por lesão, ambas por lesão no pé (bom, é futebol, dirá alguém).

Se o Botafogo tinha um mérito à medida que o tempo passava e o apito final se aproximava, era o de não ter dado nenhum contra-ataque para os vascaínos. Certo que ter um a menos complicava a coisa para os cruz-maltinos, mas vale lembrar que lá pelo terço final do segundo tempo, o zagueiro Carli se juntou a Brenner e Kieza, e o Botafogo jogava num inovador sistema com três centro-avantes e dois atacantes abertos. Inovador ou anacrônico, porque se o futebol começara, lá naquele Inglaterra x Escócia, no 2-3-5…

Já dirão os pessimistas: 0x0 é do Vasco e aquele Inglaterra x Escócia fora 0x0. E meu amigo botafoguense, que tem sobrenome escocês, terá de repensar se a namorada tricolor fizera bem ou mal em comprar os ingressos. Pior ainda ao pensar, em meio aos gritos da torcida do Vasco – praticamente 3/4 do estádio – que a coisa tinha ido para algum lugar indesejado, aos 92 ou 93 minutos de partida, na expulsão aparentemente idiota de Leo Valencia, do Botafogo. Agora restavam dois ou três minutos, o Botafogo tinha perdido um dos atacantes abertos, as pernas que erravam passes desde o primeiro minutos estavam mais cansadas e, para piorar, o ambiente em calderão dos cruz-maltinos parecia um ritual previamente ensaiado: alguma bola cairá nas mãos de Martín Silva, ele deixará o corpo cair no gramado, olhará para cima, se levantará lentamente, dará um chutão para longe e ouvirá, junto com seus companheiros e seus adversários, o derradeiro sopro daquele homem de laranja. [Houve um tempo em que os árbitros entravam de preto, e segundo o uruguaio Eduardo Galeano, era porque entravam de luto]

Não. A bola foi para a área, Igor Rabello, talvez ali o recém-convertido quarto centro-avante, ficou de frente para o gol e, no lugar do balaço-aço-aço, passou a bola, numa mistura de frieza e maldade. Quem a recebeu, passou para o meio da área, e Kieza – acho que Kieza – finalmente deu ares de normalidade ao lance e chutou. Chute bloqueado, ainda aguardávamos a bola nas mãos de Martín Silva. Um tiro de meta também servia, é uma espécie de ritual secundário, menos dramático. A bola rodopia, um peão rumo aos pés de Carli, que, claro, não a domina. E não a dominar foi o magistral golpe para chutar um peão arredio e ver a bola passar entre Martín Silva e um zagueiro vascaíno. 49 minutos e uns cinco segundos do segundo tempo. De uma partida que terminaria aos 50, naquele minuto final que teria a bola nas mãos de Martín Silva, a olhada para cima, o levantar-se lentamente e o chutão.

O que dizer de uma arquibancada que vive uma alegria de fato em apenas 50 segundos dos 11.400 segundos de um jogo? Pessoas caindo, copos de cerveja voando, gente se batendo, gritando, chorando, cantando e, claro, fazendo sinais para 3/4 do estádio.

O jogo acabou, fomos para os pênaltis, e não adianta dizer muito. O Botafogo venceu, 4×3, com certa dose de sufoco, pois das três penalidades perdidas, a primeira fora justamente a do botafoguense Pimpão, que já teve estrela, que coisa, com a camisa vascaína. Um pouco de justiça: os pênaltis não foram perdidos, mas defendidos pelo uruguaio Martín Silva e pelo paraguaio Gatito Fernández.

A taça foi erguida, passada de mão em mão, o 1/4 de volta olímpica foi dada, e logo voltamos para casa, naquele meio de transporte que, até pouco tempo, não existia. Confusão aqui, trânsito acolá, chegamos bem. E na memória, um jogo ao qual fui lançado sem jamais ter escolhido como destino. Entre a contingência de muita coisa e o absurdo acaso, não estive diante da partida, na TV, mas vivo como a mais aguda viva. E pude lembrar, em versos vascaínos, que

“há quem, entre 07 de dezembro de 2008 e 07 de novembro de 2009, perdeu a vida e não divisa agora o simples que é respirar com força mesmo que a pele esteja condenada a lembrar sempre”.

As datas são outras. As perdas, também. Mas como afirmar que os mortos não estavam?

 

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