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Conversava eu, certa vez, com um sociólogo belga que mora – ou morava? – no Rio de Janeiro. Era amigo de uma amiga argentina, que por aqui andava para estudos de doutorado. Sabemos que devemos combater os preconceitos, e tanto sabemos que somos bem preconceituosos, como eu, que sempre penso que sociólogos ocupam suas vidas nos dizendo aquilos que já sabíamos. O problema, claro, não é deles, mas meu.

Isso importa pouco, de repente nada, porque o que importa é que o tal sociólogo – belga -, ao saber que, àquela altura, eu andava com 726 jogos na minha carreira de espectador, perguntou se eu não enjoava, pois jogo é sempre a mesma estrutura. Não dei as respostas que deveria dar, até pelas educações que se aprendem pela vida, além de que, no fim das contas, dissesse o que dissesse, ele continuaria a pensar que o futebol não é coisa de sociólogo, e quando o é, que caiba na mão, ou nas páginas, como mero objeto de pesquisa.

Isso faz lá uns anos, acho que três ou quatro, e como não tenho contato com ele, não posso dizer-lhe que ontem, em Fluminense 1×0 LDU, enquanto eu me aproximava da entrada, me vi de repente numa briga entre dois – cambistas? – que começaram a se estapear, a ponto de eu ter de empurrar um deles para que eu pudesse passar. Também não pude contar para o sociólogo das minhas duas experiências distantes com o time equatoriano.

Em alguma noite de verão alemão, madrugada, na verdade, meu amigo poeta me narrava, por skype, as cobranças de pênaltis daquela final de Libertadores, em 2008. Era Fluminense x LDU, e a coisa se complicava à medida que nossos batedores perdiam as cobranças. Antes de que fosse decretada nossa derrota, a conexão se cortou, a ligação caiu, e eu fui saber, lá pelas 6h da manhã, que o título era equatoriano. Em 2009, sem naração por skype, mas com pirataria – o tal streaming? Assim se chama? – vi Fred ser expulso, na madrugada alemã, e o título da Copa Sulamericana ir para Quito.

Não, não tenho raiva da LDU, não nutro nenhum sentimento de revanche, como quis implantar a torcida do Fluminense, na véspera deste jogo de oitavas-de-final da Sulamericana de 2017. Mas desconfio que foi isso que levou mais de 45 mil torcedores ao Maracanã, e talvez tenha sido este clima que fez a torcida, apesar de toda cantoria e festa, não ser tão impactante quanto fora, por exemplo, em Fluminense 3×1 Atlético-GO, partida seguinte à morte do filho do treinador, Abel Braga. Os 20 e poucos mil que ali foram para um certo acolhimento a Abel ecoaram muito mais do que os 45 mil. Também isso não pude dizer ao sociólogo.

Muito menos pude contar que, após a vitória de 1×0, iniciada com um gol de falta de Gustavo Scarpa, dando-nos a ilusão de uma chance de goleada, me despedi de um sujeito, um senhor, que chegara de bengalas, por seu problema na perna direita, tirara um saco do bolso, já com os times em campo, e comera um ovo cozido. Em 751 partidas em estádio, nos nove países que percorri – por diferentes razões – em jogos, nos quase 80 estádios, em tudo isso que não é nada demais para os outros e não entram nas contas das pesquisas, mas que é muito para mim, em tudo isso, jamais vira alguém comer ovo cozido num estádio de futebol.

O juiz apitou, a torcida foi embora correndo, inclusive o senhor que, se não podia correr, conseguiu de todos modos sair bem rapidamente dali. Eu fiquei, como sempre fico, até que a multidão se afaste e eu possa caminhar tranquilo.

Ao pegar o ônibus, paguei os R$ 3,60 da passagem com duas notas de R$ 2,00 e recebi R$ 0,50 de troco. Como diria meu amigo sagitariano, no Brasil há contradições que não se contradizem. Sentei, peguei meu livro – como costumo chegar cedo, levo algum livro ao estádio – e nem bem tinha lido duas páginas do Bioy Casares, senti o ônibus se contorcer. Era o motorista saindo, na última hora, do caminho errado. E graças a uma passageiro, que permaneceu um tempo ali perto da roleta, se dizendo fazer as vezes de GPS. Depois que este passageiro desceu, outros foram assumindo a função, para que o motorista – do ônibus – não se perdesse. Depois de passar pelo Centro, imaginei que o motorista já tivesse seu rumo certo, até ele frear a condução e gritar “minha gente, viro aqui ou sigo reto?”. “Segue reto”, disse um. E assim foi, até que eu descesse do ônibus, no ponto correto – informação não tão trivial quanto pode soar -, sem me despedir do motorista como fizera outro passageiro, uns três pontos antes de mim: “Valeu, piloto, vamos na graça de Deus”.

Que nos ajude.

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