castelao

Em 2015, o Campeonato Maranhense tinha começado em fevereiro, o que me indicava uma viagem sem jogos, em 2016, pois minha passagem de volta era justo para o primeiro dia do segundo mês do ano. Porém, como há deuses caridosos com o cronista, a federação de futebol local me presenteou, uma espécie de boas vindas à minha primeira vez em São Luís, dando início ao torneio no dia 24 de janeiro.

A expectativa de conhecer o Castelão menos famoso – o Castelão dos Castelões é o de Fortaleza, sabe a humanidade -foi adiada em uma rodada, pois logo na abertura do campeonato, tive eu de estar em Teresina, para evento literário. E os deuses, caridosos, têm seus limites, de modo que na capital piauiense não havia jogo algum. Por fim, lá estava eu, numa quarta-feira chuvosa, para São José x Sampaio Correa.

Durante muitos anos, o imaginário entendia que o grande clube maranhense fosse o Moto Clube, mas recentemente os olhos foram para o Sampaio, principalmente após a boa campanha na Série B, chegando mesmo a namorar com o acesso à primeira divisão nacional. Portanto, apesar de o Castelão comportar mais ou menos quarenta mil pessoas, eu sabia que ingresso para um jogo da Minha Bolívia Querida não era coisa simples. Por isso, foi logo na quarta-feita de manhã comprar as entradas para mim, a moça de São Luís e o pai dela, que, segundo o próprio, fora convidado para jogar no Sampaio, quando tinha 20 anos. Recusou, e aos 27 deixou de jogar bola, por causa de problemas no joelho. Hoje, pega boi pelo chifre, agarra bezerros e coisas do estilo, na sua fazenda, em Centro do Guilherme. O site do clube anunciava a venda antecipada para quarta-feira, sendo o jogo na…quarta-feira. Por aí se nota a diferença ontológica, a outra forma de medir o tempo. Não havia fila, e a compra foi sem complicações, com o gracejo de que o um real de troco virou noventa centavos, e isso porque o bilheteiro tirou do próprio bolso.

Chegamos uns quarenta minutos antes do jogo, ansiosos e certos de um desfile da Minha Bolívia. A chuva tinha afastado os torcedores locais, e aquela imensidão de cadeiras era apenas pingada aqui e ali por um sujeito. O hábito do radinho de pilha, aquele bem grande – alguns grandes demais -, é mantido, não apenas por torcedores mais velhos, mas também por jovens. O pai da moça logo encontrou um amigo para conversar e contou suas histórias, incluindo a de que fora convidado a jogar no Sampaio, quando tinha 20 anos.

Sem pompa, as equipes entraram no gramado, bateram o par ou ímpar – com moeda, que seja – e deram início a uma partida sem muita movimentação. O São José tinha entrado para se defender completamente, apostando numa bola partida, um contra ataque safado. O Sampaio passava pra lá e pra cá, e nada. Infelizmente, Pimentinha, o Messi do Nordeste, disputado pelos maiores clubes do país, estava no banco.

O segundo tempo veio sem muita mudança na história, e enquanto um vendedor de laranjas descascadas subia e um vendedor de churros descia pelas arquibancadas, o colega do pai da moça seguia fazendo suas apreciações táticas e técnicas, emendando que o treinador era fraco, tinha “vindo do Ceará”. Foi, sem dúvida, o momento mais tenso da partida, pois o pai da moça, nascido em Santa Luzia do Paruá, no interior maranhense, era de família inteira de cearenses. Questionado sobre sua colocação, o colega não fez por menos e acrescentou que “veio do Ceará, terra de frouxo”, no que teve de ouvir: “frouxo só se for este aí, porque Ceará é terra de cabra macho”. Por sorte, o colega acalmou, e ainda riu, sem deixar de anunciar o próprio riso: “agora o senhor me fez rir. Pois é isso mesmo: frouxo é esse aí”. Salvou-se a humanidade. As guerras começam assim, com eventos pequenos, em lugares não centrais.

Valderrama, sugestivo nome para um atleta de cabelos semelhantes ao original colombiano, fez o gol, num rebote, e o Sampaio venceu, 1×0, diante dos 909 presentes, com renda superando os 7 mil reais. Descontentes com a atuação da nossa Bolívia, fomos para casa, comentando o jogo e fazendo previsões para o resto do campeonato.

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