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Cada vez mais, o futebol no contexto brasileiro toma rumos indesejados. Digo no contexto brasileiro, pois num mundo globalizado e dominado pelo capital, em que a economia brasileira nos últimos tempos vai de mal a pior e não dá o mínimo sinal de recuperação em curto prazo, fica difícil os clubes manterem seus jogadores por aqui. Já em anos passados, em que a economia, aparentemente, ia de vento em popa, era difícil manter um plantel, que dirá agora.

O último caso mais notório é o do Sport Club Corinthians Paulista, o Timão, campeão brasileiro de 2015. Ao longo da competição, a equipe ganhou entrosamento e elevou o nível de jogo perante seus adversários diretos, disparando na reta final. Sobretudo o setor de meio de campo se destacou, além de o time ter revelado um bom plantel, com gente vindo do banco e dando conta do recado, para surpresa de muitos.

Todavia, aquilo o que parecia ser a coroação de um trabalho que daria seus frutos no primeiro semestre deste ano, com a disputa da Copa Libertadores, o mais sonhado e cobiçado torneio de todos os clubes na América Latina, caiu por terra. É como se a árvore tivesse sido envenenada, e agora revelasse seus galhos secos, pois os frutos não vingaram. E esse veneno chama-se capital. Não é de hoje que se ouve dizer que o capital, feito Medusa, petrifica tudo o que toca, não poupando sequer os bens culturais. E isso não é diferente com o futebol. Não é nem saudosismo, pois o profissionalismo e a gestão empresarial trouxeram ganhos ao futebol, principalmente em termos organizacionais. O problema é quando um bem cultural se torna mais uma mercadoria nas prateleiras do capital, é como se matassem a galinha dos ovos de ouro. E os campeonatos em países como o Brasil se ressentem de terem seus níveis sensivelmente rebaixados com a contínua evasão dos operários da bola, os chamados “pés de obra”.

Com esse quadro nada lisonjeiro, é decepcionante vermos jogadores brasileiros irem embora para equipes que disputam campeonatos para lá de periféricos, deixando os clubes locais na estaca zero. E o “trend” do momento é, literalmente, fazer negócios da China e com a China. Se o Corinthians sinalizava com uma equipe razoavelmente competitiva para a Libertadores deste ano, agora, tornou-se uma verdadeira incógnita. Não posso conter o riso ao me recordar de alguns comentaristas esportivos fazendo seus prognósticos após o sorteio dos grupos para o torneio. Tudo trabalho jogado fora, pois o time não existe mais naquela formação vitoriosa. Será que, em poucos meses, a direção técnica do alvinegro do Parque São Jorge – ou será do Itaquerão? − terá como tirar mais um coelho da cartola e apresentar uma equipe que, pelo menos, dispute a competição de maneira tecnicamente decente? O setor de meio campo, cérebro da equipe, foi desmantelado com a saída dos jogadores Ralf, Jadson e Renato Augusto, e, como tudo indica, Elias também terá o mesmo destino. A imprensa fala em verdadeiro “desmanche”. E os super poderosos da bola e do dinheiro, no momento, são o Tianjin Quanjian e o Beijing Guoan – e o mercado brasileiro da bola é a “feira livre” do momento. Só faltam aqueles gritos tradicionais de “Ô, dona Maria, leva o fulano de tal… Mas também têmo o ciclano e o beltrano! Dá pra fazê um desconto, pega a bacia ali, dona Maria!”

Mas temos de ter em mente que não basta criticar, tem de se entender o momento. Se bem que o termo “momento” não seja o mais adequado. Pois esse status quo vem se desenvolvendo, ininterruptamente, desde a década de 1990. Podemos pensar em termos matemáticos, sem termos de recorrer a Oswald de Souza, em duas curvas simultâneas idênticas, mas inversamente proporcionais: uma curva da saída de jogadores, sempre crescente, e outra curva do declínio do futebol brasileiro naquilo o que melhor lhe caracterizava a ponto de cristalizar o mito do chamado “futebol arte” abaixo da linha do Equador.

As coisas não são fortuitas, ninguém treme nas bases e chora copiosamente a toa quando joga em casa uma Copa, ninguém leva um 7 x 1, piedoso, eu diria, uma vez que os alemães tiraram o pé no segundo tempo da fatídica partida de 08 de julho de 2014, com exceção de Schürle, que fez dois gols e, no intervalo, devia estar tirando uma soneca no vestiário durante as instruções de Löw para o segundo tempo… Se penso em Nelson Rodrigues, provavelmente, aquele que disse, certa vez, que 1950 – o Maracanazo – tinha sido “a nossa Hiroschima”, no seu melhor estilo hiperbólico, diria agora que o nosso “11 de setembro” é o “08 de julho” – o Mineirazo ou, como preferem os alemães, o Mineiratzen.

Mas por que fugir do assunto, que era o desmanche corinthiano, para falar da seleção da CBF? É que tudo está intimamente ligado. Tudo pertence à curva do declínio. Talvez os mais jovens não vejam as coisas assim de modo tão cinzento como o céu nesta tarde, mas para aqueles da minha geração e das gerações anteriores, que tiveram o privilégio de torcer para seus clubes no tempo em que jogador só usava chuteiras pretas, nada galácticas, e em que não havia nome de patrocinador – sinônimo de capital e de poluição visual – nas camisas, limpas, imaculadas, é difícil ver com bons olhos os rumos que o futebol mundial tomou, e, de reboque, com a enxurrada, o futebol brasileiro.

Elcio Cornelsen é professor da Faculdade de Letras da UFMG, nas áreas de Língua e de Literatura Alemã e pesquisador do FALE/UFMG.

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