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Vasco x Santos começou, para mim, na quinta-feira, quando fui comprar o ingresso. O site do Vasco já anunciava que não haveria venda no dia do jogo – domingo, portanto – o que não impediu torcedores de irem quebrar a cara e jornalistas de afirmarem o descaso – que não era caso anunciado – do clube. Os cambistas atuavam livremente, e era difícil pensar em tão aguda situação, em que desde o clube, sem vender ingressos no dia do jogo, até o jornalista desinformado, passando pelo torcedor e pelo cambista, ordem e organização soariam insultos ou, pior, termos absolutamente desconhecidos.

Repito: Vasco x Santos começou, para mim, na quinta-feira. Porém, pegar um ônibus e se deslocar por bairros não é tarefa simples. Exigiu toda uma organização que, no fim, falhou, tanto pelo trânsito quanto pelo mal funcionamento da linha 472 – o Rio possui essas linhas mitológicas, consagradas por não funcionarem bem, demorarem, os motoristas não pararem no ponto. Não sei se é instrução da empresa, se é apropriação indevida de poder – o motorista, afinal, se reconhece enquanto sujeito livre, capaz de agir conforme suas vontades – ou se simplesmente é um acerto de contas: o patrão paga mal, trabalho mal.

Digo: Vasco x Santos começou, para mim, na quinta-feira. E a expectativa de que chegasse logo domingo era grande. Já saberíamos os resultados de Avaí e de Figueirense, já estaríamos quase concomitantes com o Coritiba. E, claro, teríamos os pouco mais de noventa minutos para saber o que aconteceria ali mesmo em São Januário.

Admito: num país tão apto aos arranjos e desarranjos, que a penúltima rodada não seja disputada com jogos no mesmo dia e horário é mesmo de se espantar. Pelo menos os jogos que definissem alguma coisa. Porque fica suspeito o Coritiba entrar em campo contra o Palmeiras já sabendo de tudo o que precisa ou não precisa. Talvez por isso a chuva tenha conseguido acertar pelo menos uma parte da história: se Avaí e Figueirense tiveram de jogar sábado, o Vasco, que começaria sua partida uma hora antes da do Coxa, viu-se obrigado ao atraso, depois que um temporal caiu 70 minutos antes do início da partida.

Sejamos precisos: o que era uma hora antes, virou uns quinze minutos depois. Provável que alguém tenha acusado Eurico Miranda, mas com toda a força e os brasileirismos do dirigente, na chuva ele não manda. E a coisa foi mesmo séria. Em dado momento, parecia que São Januário viraria uma ilha, literal. Os relatos que chegavam indicavam os tais bolsões de água por toda região, além dos carros que víamos passar na rua em frente, já com água cobrindo os pneus. Para não faltar elementos à crônica, um cidadão escorregou pelas arquibancadas, bateu com a cabeça e saiu carregado pelos médicos. “O primeiro carreto da noite” viera antes do apito inicial.

A partida mostrou o que tinha mesmo de demonstrar: um Santos perdido, criando uma ou outra chance na base de umas triangulações que devem ter sido praticadas nos bobinhos de intervalo, deixando espaços perfeitos entre meio e defesa, e um Vasco que – para minha surpresa – não passava intranquilidade. Insistia na esquerda, ora com Jorge Henrique, ora com Nenê, tinha em Diguinho seu ponto médio, espécie de ponto fixo do pêndulo, e ameaçava como quem soubesse que uma hora o gol sai. Saiu mesmo, num pênalti que não me pareceu pênalti, mas não posso ter certeza nem revi pela TV. 43 ou 44 do primeiro tempo. Nenê.

O segundo tempo viu o Santos mais lançado ao ataque, perdido de todas formas, pagando o preço de atuar com reservas e saber o mais simples de tudo: se não for campeão quarta, contra o Palmeiras, fica sem Libertadores, pois a derrota contra o Vasco deixava a briga da última vaga via Campeonato Brasileiro entre São Paulo e Internacional. O segundo tempo também viu a torcida do Vasco comemorar um gol do Palmeiras, que àquela altura empatava o jogo contra o Coritiba. O problema é que meu rádio não anunciava o gol, seguia como se tudo estivesse igual. Por sorte – e competência do repórter de campo – avisaram que aquela festa sem cabimento da torcida do Vasco – não ocorria nada demais no campo – não poderia ser pelo gol do Palmeiras, porque seguia 0x1 em São Paulo. Entre essa notícia e os gritos de “foi gol do Palmeiras” que me circulavam, a realidade se apresentava como uma presença impossível, embora constante.

“Eu acredito”, frase chavão das brigas contra o rebaixamento ou das classificações aparentemente impossíveis, foi entoada com toda força, enquanto os jogadores vascaínos deixavam, exaustos, o gramado. Rodrigo, Diguinho, Riascos e Nenê pareciam esgotados. Andrezinho, suspenso pelo terceiro cartão amarelo, não entra na decisão que pode nada decidir, haja vista que o Vasco depende de outros resultados, mesmo vencendo sua partida.

Ainda enfrentei um 474 passando por fora e não parando no ponto, além de ter encarado um ônibus que me deixaria em outro bairro, mas que pelo menos me permitira a chance de chegar em casa a pé, mesmo que andando uns 2km, coisa saudável, que evita o sedentarismo das grandes cidades. Digo encarar não por mera retórica, mas porque tivemos mesmo de ficar cara a cara com o ônibus, se não quiséssemos perdê-lo. Aproveitando-se de uma van que inclinava na nossa direção, tentando ganhar espaço, o motorista já começava a contorná-la e se dirigia para a faixa de fora, acelerando. Acredito que, se fôssemos poucos passageiros, ele teria ganho e ido embora.

Quatro anos depois de abrigar o título do Vasco, na Copa do Brasil, e seis após de ter sido o local de uma batalha campal, quando o Fluminense confirmou uma inadjetivável reação e o Coritiba foi rebaixado, o Couto Pereira volta a estar nas vistas cariocas. Trinta anos depois de o Coxa haver sido campeão brasileiro, no Rio de Janeiro.

Tudo passa sobre a terra.

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