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desenho de Ary Monteiro Jr.

 

a Wanderson Lima

O professor de literatura da Universidade de Stanford, o alemão torcedor do Borussia Dortmund e do Flamengo, Hans Ulrich Gumbrecht, ao falar sobre emoção no esporte, numa palestra no Rio de Janeiro, afirmou que pode trabalhar depois de praticamente qualquer atividade, menos depois de ver um jogo. Segundo ele, o desgaste emocional é tamanho, que se levam algumas horas para se recuperar. E devo dizer que estou de acordo.

Ontem, 19 de novembro de 2015, fui a São Januário, onde vi e vivi algumas coisas no futebol, incluindo a perda de um título, o da Copa do Brasil 2005, quando o Fluminense foi derrotado pelo Paulista de Márcio Mossoró. Segundo a imprensa, seria a primeira vez que o campeão brasileiro poderia ser coroado em São Januário. E pensei duas simples coisas: primeiro, no acidente de 2000, quando o alambrado veio ao chão e a partida final entre Vasco x São Caetano foi suspensa. Voltariam a decidir o título no Maracanã, com vitória vascaína. Segundo, no fato de eu jamais ter visto o campeão brasileiro. Para ser preciso, o único campeão nacional que vi, no dia da conquista, foi o Vélez Sarsfield, no Clausura de 2012.

Precavido e ciente da cidade onde moro, saí cedo para o jogo. Já tinha o ingresso, e o plano era sentar em algum bar nas imediações de São Januário, ler um livro e esperar algumas horas, até que o estádio abrisse as portas e eu pudesse passar mais umas duas horas lá dentro, lendo o mesmo livro. Acabei num Subway, sem ironia pela situação cruzmaltina, porque era um local com ar condicionado, e o calor carioca exigia.

A torcida do Corinthians também se antecipou, e duas horas e meia antes do jogo, já chegavam ônibus e ônibus abarrotados, escoltados pela polícia. Xingavam e cuspiam nos moradores, como se qualquer cidadão na rua fosse um vascaíno hostil à presença paulista. Com isso, a PM fechou a rua, e lá fomos dar uma volta maior que a de costume para chegar ao portão de entrada.

A experiência em estádios não me evitou de errar o movimento e, sem perceber, ultrapassar o isolamento policial que havia também do outro lado. Lá estava eu, quase do lado do ônibus do time do Corinthians, quando um PM me pergunta o que eu estava fazendo ali, me pedindo logo a credencial. Não tinha, claro. E ficou uma pseudoconversa desencontrada, até que outro policial se aproximou e, sem delongas, pôs a ordem: “boa noite, a entrada é por lá”. Retornando, me dei conta de onde realmente estava, no meio de todo aquele armamento, e não posso compreender, ainda agora, como não tinham me interrompido antes.

Uma vez dentro do estádio, o alívio toma o coração. De lá só me tiram morto. E não me venham falar em exageros, porque eu já tinha o ingresso em mãos, comprado legalmente etc. Não me venham com essa. Se há uma coisa que esse país dispensa é a certeza. O livro continuava a ser lido, em ritmo lento, e um ou outro torcedor aparecia, um outro jornalista. Pois a minha estratégia, que meu amigo botafoguense considerou loucura, foi de ficar na divisória entre as torcidas. Caso o estádio ficasse entupido – o que não veio a acontecer -, eu estaria próximo do cordão de policiais, dos jornalistas com câmeras, de alguns repórteres, das cabines de rádio e, claro, de um vão.

Um antropólogo não pode dar conta de tudo o que acontece num estádio de futebol brasileiro. Por exemplo: um torcedor, conhecido por Caíque, aparece com três cartazes, escritos em tinta preta num papelão. O primeiro diz que tem fé e acredita – certamente na permanência do Vasco na Série A. O segundo faz referência aos atentados em Paris e pede paz no mundo. O terceiro dá as boasvindas aos corintianos e afirma que o Rio é o lugar mais bonito do mundo. A realidade tem mesmo essa capacidade de ser real sem ser visível. Muitos solicitam foto com Caíque, e os repórteres o entrevistam. Para aparecer na TV Record, a jornalista lhe pede que deixe a folha de arruda de lado. Caíque, pelo visto sem grandes apegos ideológicos, obedece sem rodeios.

O jogo vem, e o Corinthians joga mal. Erra passes bobos, parece esperar o tempo passar, parece querer que alguém de fora lhe permita ser campeão. O Vasco, com toda sua vontade, é um time fraco. Bem fraco. E entre a inoperância e a fraqueza, ficou-se no 0x0. O segundo tempo não mudaria, não fossem três momentos: a expulsão do zagueiro Rodrigo, os dois erros bobos corintianos, que deram dois contraataques ao Vasco e, claro, o gol do time da casa, num desses erros. A expulsão, que pareceria pesar em favor dos visitantes, acabou sendo arma(dilha): deu a impressão de o Corinthians ficar ainda mais inoperante, como se, com um a menos, o Vasco não pudesse mesmo sair do zero e o título fosse apenas uma espera. Por sua vez, o Vasco parece ter aproveitado essa tentativa de ponto morto corintiano e acelerou, mesmo que desajeitado, o jogo.

Não se é campeão brasileiro, num torneio com 38 rodadas, por acasos e sortes. Bastou levar o gol, o time visitante se organizou e foi jogar. Criou três chances, uma delas bem perigosa e a outra, um gol incrivelmente perdido. Na quarta, não teve jeito, e Vágner Love empatou o jogo. O Vasco sentiu muito, e o esforço físico pode cobrar seu preço na próxima partida, contra o Joinville. Se cobrar e receber o pagamento, fim, o Vasco se rebaixa.

Com o apito final, o Corinthians fez festa e a torcida vascaína foi, silenciosamente, embora. Não houve forças para vaias, insultos, quebra-quebra. Simplesmente foram embora. Havia uma mistura de desânimo e resignação. O que animava o corpo a fazer o movimento de ir embora era algum automatismo, algo internalizado ao qual o corpo obedece sem se questionar. Permaneci alguns minutos ali sentado, vendo os jogadores pulando, jogando Tite para o alto, cantando com a torcida – a maldade não conhece fronteiras, e os corintianos, vendo os vascaínos deixarem o estádio, entoavam “fica, cuzão, pra ver o campeão”. Um rapaz, certamente um turista – mineiro? – me pediu para fazer uma foto, outra, e pousou feliz para as duas, com o estádio ao fundo. Os braços erguidos e o sorriso destoavam dos cabisbaixos cruzmaltinos.

Na volta, sem ônibus que aparecesse, me meti numa van. Dois pedaços de papel, escritos à mão, indicavam que até meia-noite, 3 reais, depois, 5. Já era 0:40h. Dois passageiros iam em pé, e mexiam com um coroa que afirmava estar contente com o resultado. A van era uma confraternização de vascaínos frustrados, comandados por esses dois que viajavam em pé e se mostravam e demonstravam, entre frases como “se liga aí que estou duro e vou te assaltar”, “hoje é para eu jogar um leite, depois dessa derrota” e, ao passar pela Feira de São Cristóvão, anunciar que quando vai ali “arrasta quatro pro motel lá no Estácio”. Dois casais desceram da van, provavelmente para dançar na tal Feira, e um dos viajantes de pé não demorou em gritar, pela janela, que “é pau na buceta a noite toda”. Quando os dois jovens, sem camisa e propagadores dos seus feitos sexuais desceram, na Praça XI, houve ainda uma demora, por causa do troco. Depois, era apenas seguir uns poucos minutos até a Lapa, descer e caminhar mais uns quinze minutos até o Catete.

Mas o Rio de Janeiro gosta de contar histórias, e nem bem os rapazes desceram, um jovem, ao meu lado, pediu ao cobrador – aquele sujeito que enrola as notas na mão, vai em pé quase pendurado na porta e grita o itinerário a cada ponto de ônibus – o seu troco. “Que troco?” E lá se foi um debate imenso sobre o tal troco. O jovem alegava ter dado 20 reais. O cobrador dizia ter devolvido o dinheiro, pois não tinha troco. O jovem precisava melhor as informações, e se me obrigassem a ser juiz, eu teria de dar razão ao jovem. Nesses momentos, pensamos o que é o Estado: se ele regula tudo e impede as pessoas de interagirem e negociarem entre elas, temos um problema, um paternalismo; se ele se ausenta, vemos que as pessoas, acostumadas a essa estrutura paternalista, não sabem agir. Seria impossível o jovem provar que estava certo ou o cobrador provar que tinha razão. O jovem, pasmo, chegou a dizer “gente, mas é assim?”, sem perceber que o mundo é mais cruel, que essa “gente” – nós, demais passageiros – não entraríamos naquilo, que ele que resolvesse na retórica, no tapa ou na arma. Pasmo e incrédulo, gritou, “motorista, é assim?”, e ouviu do motorista que “o problema não é comigo, dinheiro é com ele aí”, apontando para o cobrador. Já perto do ponto final, na Lapa, o jovem começa a dizer que os 15 reais não mudariam a vida dele, que a “consciência é de cada um” e “aqui se faz, aqui se paga”. O cobrador não retrucava mais, tinha se virado de costas e olhava para fora. O jovem seguia com sua – péssima – tentativa de humilhar o cobrador pela via da superioridade financeira. Era um movimento perigoso, pois àquela altura da noite, com apenas três passageiros na van – o jovem, eu e mais um rapaz ao meu lado -, um acerto de contas para ver quem tem mais superioridade nesse mundo não seria difícil. E o jovem já tinha demonstrado acreditar demais na justiça metafísica.

Por fim, descemos todos, e o jovem soltou “fique aí com os 15 reais e aproveita para comprar um tênis novo porque esse aí está horrível”. Eu desci calado. O outro passageiro deu “boa noite” ao cobrador.

Mesmo lá pelas duas da madrugada, ainda deu tempo de escrever para meu amigo piauiense, corintiano que tinha vindo ao Rio na época de Fluminense 0x0 Corinthians, e que ontem se esbaldava numa enorme festa da Gaviões de Teresina. Também deu tempo de trocar algumas mensagens com meu amigo botafoguense, lembrando de times marcantes que nada conquistaram, muitas vezes sequer brigaram pelo título, como o Goiás de 2003, o Fluminense de 2009 e este Vasco de 2015. E ainda deu tempo de me lembrar que, se não me engano, desde o Palmeiras de 93/94 não estabeleço uma relação de afeto tão grande com outro time como agora tenho com o Corinthians 2015. De ir ao estádio e maravilhar-me com o que vejo, experienciar o modo de jogo, as variações, o conjunto de uma equipe que fascina para muito além dos aspectos clubísticos.

Não se trata de amor, pois se o amor é cego, o que vejo no Corinthians 2015 é bem visível. Com todas as tautologias da nossa mera existência.

 

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