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crónica dedicada a Miguel “Pela” Rodríguez y a Lukita Rodríguez

Hoje é dia de Argentina x Brasil, em Buenos Aires. E o que importa? Provavelmente, pouco. Sim, porque se os dois empatam e seguem cambaleantes neste início de Eliminatórias, problema deles, porque o nosso problema, o do nosso mundo, não permite que sejamos altruístas. Como se preocupar com a seleção quando o seu time de Primera C (quarta divisão) está indo para a Primera D, menos de cinco após ter estado na Primera B, ter feito uma campanha ruim, mas com momentos de puro corazón, enfrentando gigantes da categoria de igual para igual, arrancando empates e vitórias marcantes para aqueles que a cada jogo no Enrique Sexto, em Villa Devoto, lá estavam.

Acompanhei o General Lamadrid, primeiro, de longe, ouvindo as transmissões de uma rádio, via internet. Sebastián Crosta, o narrador, me ensinava as mais brilhantes metáforas sobre futebol, me ensinava que provincianismo não é viver na sua província – no seu “microcosmos” – e amá-la; provincianismo é negar sua vida para cultuar um “algo maior”, como se a grandeza estivesse em algum patamar cercado de enfeites e outras distrações. Depois, acompanhei o Lamadrid desde dentro, no estádio, onde conheci pai e filho torcedores, com quem até hoje mantenho um contato, com quem posso me sentar daqui a dez anos, mesmo sem nos termos visto durante este tempo, e comeremos uma milanesa completa, tomando um refrigerante de pomelo.

Não. Não estou dizendo que ver a Champion’s League é provincianismo. Pode-se ver o que bem entender. E é certo que a qualidade do jogo lá é melhor. O problema está em outros modos. Sebastián, no seu jeito sempre preciso, lembra que eles – os da Champion’s League – provavelmente não estão interessados em nós, então, por que ele tem de estar interessado neles? Ele pode. Mas não tem que. Ele tem seu Lamadrid, seu clube de bairro, ali do lado da penitenciária, com quem mantém uma relação de não sei quantos anos, vendo e vivendo tudo quanto é experiência.

O Lamadrid não tem museu, campanhas publicitárias, não recebe turistas ávidos por mostrar ao mundo que lá estiveram e que são capazes de se sentir melhores de que os amigos que lá não estiveram. O Lamadrid tem seus problemas. Mas durante o um ano e meio que frequentei o estádio, não apenas fez as amizades citadas, como fui sempre bem recebido, sempre me senti à vontade, pude ser mais um ali a participar de uma vida que se compartilha em algumas horas quando o Lamadrid joga em casa.

Eu vi a temporada na Primera B, me conformei com o rebaixamento, mais ou menos esperado, e vi o início da temporada seguinte, na quarta divisão. Se ainda morasse em Buenos Aires, voltaria, estaria lá para cada jogo desta terrível Primera D, uma quinta divisão impensável.

Mas eu sou um visitante apenas, alguém que chega e logo vai. E devo dar um abraço nas pessoas da casa, que terão de enfrentar muita coisa para seguir sustentando um clube que, para além de um amor, o que pode dizer? Não precisamos ser nostálgicos de botequim e acusar o sistema ou o que seja, porque o Lamadrid pode ser que encontre um caminho, uma adaptação para impulsionar o clube – como clube social – e, pouco a pouco, voltar a subir, a ser puro huevo, a dejar todo en la cancha.

Hoje jogam Argentina e Brasil, em Buenos Aires. Verei o jogo. Sem torcidas para um lado ou outro. E, no paradoxo e nas contradições que carregamos, seguirei sonhando com o dia em que o Lamadrid enfrentará o Barcelona, na final do Mundial de Clubes.

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