sereiamitchell

desenho de Vinicius Mitchell

O misticismo progressista brasileiro, aliado à crítica cultural – aquela coisa para afirmar que o meu gosto é bom e o teu é ruim -, tem sua crise de afetação manifestada – via post-queixa de facebook – quando o futebol aparece. Hoje, devemos reconhecer, será um dia difícil para este movimento cuja maior contribuição ao pensamento foi gerar piadas de bar – não contadas por ele, claro – e remédios para dormir. Um dia difícil, embora a geografia lhe seja favorável.

O misticismo progressista busca redutos que o isolem dos demais, porque o Outro interessa apenas à medida que possa caber numa tese de doutorado ou num artigo de livro, afinal, temos de ser inteligentes, como se sabe. E, por sorte ou competência, o jogo mais crucial deste tenso domingo tem lugar em Belo Horizonte, longe dos passarinhos pagãos que sobrevoam a cultura – quer dizer, a natureza, aquela coisa cultural que deixamos de fora quando convém e evocamos quando não há mais jeito.

O Atlético busca o difícil, embora a aparência dos oito pontos de diferença entre ele e o líder Corinthians pareça dizer mais do que diz. Por quê? Porque uma vitória mineira, hoje, não apenas reduz a vantagem para cinco pontos, como vê o clube paulista com adversários mais fortes nas últimas cinco rodadas – exceção feita logo à rodada seguinte ao jogo de hoje, em que o Timão receberá o fraco Coritiba, em Itaquera.

No entanto, empatar em Minas não é um resultado atípico para um Corinthians forte, de um Tite teórico – o que falta a um país tão empírico, como lembra meu amigo sagitariano, que não gosta de futebol, mas gosta de pensar -, e empatar em Minas é praticamente brincar de campeão. Manter os oito pontos, faltando apenas 15 pontos em jogo, é quase o mesmo do que ser campeão antecipado, apesar de tudo o que a curta história do futebol já nos mostrou.

Pobres somos nós, torcedores dos outros times, principalmente se somos pobres sem TV a cabo ou não moramos em São Paulo, porque meu amigo botafoguense, por exemplo, acaba de escrever descrente e desanimado de assistir a Grêmio x Flamengo, na TV aberta, quando queria mesmo era ver “a final”. Verdade que ele já resolveu a vida ontem, derrotando o Bahia no Engenhão e deixando a Série A apenas uma questão de dias contados, enquanto eu terei de ir ao mesmo Engenhão para um sufoco danado, que é enfrentar o Vasco, considerando que pouco mais de 3 mil tricolores estarão lá – segundo a imprensa, a carga de ingressos que o Vasco dispôs aos torcedores do Fluminense foi de 3.300.

Um jogo que deturpa muitas das ordens teóricas, o que nos obriga, logicamente, a teorizar outra vez, a pensar, sem aceitar as gavetas e os catálogos que recebemos como herança válida, porém incerta e insuficiente. Um jogo entre o último colocado, o Vasco, e uma equipe que ocupa a metade de baixo da tabela. Uma equipe a nove jogos sem perder – o Vasco! – e outra que, apesar dos 40 pontos e de ter terminado o primeiro turno em quarto lugar, ainda precisa de pontos para não dar chances ao rebaixamento.

Assim como em Belo Horizonte, o bairro do Engenho Novo, no subúrbio carioca – falem baixo, senhores, subúrbio é palavra causadora de danos ao misticismo progressista -, terá uma decisão. Não uma decisão no sentido espetacular que a imprensa costuma propor. Digamos que é uma decisão de caminho, apesar de uma derrota vascaína não ser tão dramática quanto a tabela parece mostrar.

E talvez o futebol seja isso: o que se joga em noventa e poucos minutos é muito mais que a vida. Mas vale muito pouco, mesmo deixando muito para muita gente e muita coisa, do imediato ao longínquo. E o que é esta nossa curta vida, senão algo semelhante?

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