Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 15 de Outubro de 2015 - CAMPEONATO BRASILEIRO - VASCO X CHAPECOENSE - durante a partida valida pela 30a rodada do Campeonato Brasileiro, no Maracana. Foto: Jorge Rodrigues/Eleven.

Lá fui. Ver com os distantes olhos do espectador (parcialmente) indiferente uma reação que tem seu mérito e sua outra verdade, a de não ser o mesmo time, embora o mesmo clube, a promover esta incrível arrancada que já leva o Vasco a sete jogos invicto, saindo de uma certeza do rebaixamento a uma esperança que, se agora abaixa a cabeça, não quer dizer que não exista.

Quis chegar cedo, mas o trânsito do Rio de Janeiro não é chegado a essas facilidades. E o modo mais cômodo para comprar ingresso e entrar no estádio foi mesmo o de me dirigir ao setor visitante e me fazer de catarinense. Reparei que era, em mais de 350 jogos, a minha primeira vez como visitante real no Maracanã – não conta visitante em clássico, por favor. Isso não quer dizer nada nem para a humanidade, nem para o jogo, nem sequer aos meus amigos. Mas, quem sabe, pode emergir na lembrança alheia alguma daqueles situações inusitadas e contingentes que, pelas mais diferentes razões, não costumam emergir.

Os lugares comuns vivem espalhados por tudo quanto é parte. E há quem diga que o futebol é ópio do povo – lugar já outrora pretendido para a religião -, atraso nacional e tantas outras coisas pouco dignas. O misticismo progressista o ataca com força, mas apenas em ambientes restritos e sempre dono de uma dialética – que não seja iluminista, porque o chefe não deixa – pouco convincente. Porém, como a vida é a vida, não tem jeito, lá estava, entre os pouquíssimos torcedores da Chapecoense, um jovem, aparentemente muito jovem, lendo um livro daquela série “Debates”, da editora Perspectiva. No hall de lugares comuns, isso é coisa de intelectual. E futebol não é lugar para eles. O mundo está acabando – para usar a boa expressão que ouvimos desde antes do próprio nascimento.

Ainda não me explicaram por que o hino nacional toca antes de cada partida. Menos ainda, por que a maioria levanta, como se hino antes de partida entre clubes merece respeito. Já a essa altura da humanidade. Se há algo que não vai embora, é o Romantismo. Que troca bastante de roupa, claro. Romantismo com frase de positivista é de uma brasilidade sem fim, devo reconhecer.

Depois do hino, o Vasco. Com trinta minutos de uma certeza: ganham este jogo. Os catarinenses tiveram uma tímida chance, nada mais. Os cruzmaltinos avançavam como queriam, pela esquerda, e o velho água mole em pedra dura já via a pedra quase se esfacelar e nada do placar ser aberto. Alguém teria gritado quem não faz leva, mas a probabilidade era tão remoto, que dava desânimo abrir a pouco para isso. Não sei se foi Guto Ferreira, desde o banco, ou o velho Cléber Santana, dentro do campo, mas a Chapecoense se acertou. Mantinha o risco longe. Digo, os riscos: de levar e fazer gol.

No segundo tempo, uma partida mais aberta e igual, um Vasco que parecia mais travado – eu teria de perguntar aos jogadores, pois talvez eles negassem, dissessem que isso é coisa de quem nunca esteve lá dentro, etc, mas, enquanto aquele espectador (parcialmente) indiferente, a impressão era mesmo essa: um time sentindo a tensão de perder pontos contra um adversário direto, um time deixando de somar justamente na hora em que deixar a zona de rebaixamento poderia ganhar certa luz de verdade, e não sonho. A Chapecoense expandiu o campo, saía bem pela esquerda, assumia mais velocidade no meio, com o bom 10 Camilo.

A torcida vascaína, do outro lado, sofria e não se animava tanto, até um escanteio surgir. A energia é ainda uma coisa pouco explicada. Por que mais de vinte mil pessoas resolvem se animar com um simples escanteio, não se sabe. Houve outros lances, outras chegadas, outros motivos para empolgação, mesmo que breve. Mas foi naquele escanteio que o estádio surgiu, um coro desses de incomodar. Lá, no meio daqueles poucos torcedores da Chapecoense, eu tentava captar alguma coisa na linguagem corporal dos jogadores do time de Santa Catarina. Eles acusariam uma intimidação com aquele cântico uníssono? Ou isso é coisa de espectador, cronista, jornalista, coisa de gente que pretende imprimir emoção onde não há tanta? Gol. Acho que Nenê bateu o escanteio. Gol. Rodrigo, de cabeça. Gol e reação e rumo à permanência, o Vasco é o time da virada, do amor e de não sei mais o que. Chapecó é pequena demais para um Maracanã de tantas místicas – ou física quântica ou o que seja. Gol e agora o Vasco vai tomar o jogo para si e pensar no confronto contra o São Paulo, a chance de sair do rebaixamento já na próxima rodada, a reação histórica, esse clube mostra sua grandeza, quem os dava por mortos terá de se retratar no trabalho, na escola, em público, em todos os lugares. Gol e nossos ouvidos, ali naquela pequena parte do Maracanã, sabiam o que é ser o outro.

Aos quarenta minutos, pênalti para a Chapecoense. Bruno Rangel, que tinha entrado pouco antes, bate. Gol. E cinco minutos restantes, mais os quatro de acréscimo. Nove minutos de um Vasco tenso, mas lançado a não deixar a história ser assim. Mas foi.

Não ouvimos o apito final. Nem vaias. O braço erguido do árbitro, indicando o fim, era apenas o sinal de ir para casa. Fazer o movimento decorado. E se possível – para os vascaínos – esquecer que existe futebol.

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