jeronimo

a Aldo Medeiros

Foi numa esquina, direto, sem titubear, que meu primeiro professor de alemão entregou a mim e a uma amiga dele o resultado do jogo que estava a meia hora do seu início: “1×1”. Respondi que, se o fosse, ótimo, pois nos dava a classificação, mas que minha preocupação estava no Brasileiro, já que o rebaixamento nos olha a apenas seis pontos de distância. Na sua habitual leveza, ele me contesta: se é isso verdade, o é também que estamos a apenas sete pontos da Libertadores. Nos despedimos os três e ele foi para um bar, com a amiga e mais outro grupo de três ou quatro pessoas.

A noite tinha sido adequada: no instituto em que comecei a aprender alemão, no Centro do Rio, meu primeiro professor de alemão apresentou algumas questões sobre sua tradução de peças radiofônicas de Walter Benjamin. Respondeu com humor e atenção às perguntas, e anunciou seus próximos dois projetos. O espaço era o mesmo em que estive com ele para, curiosamente, apresentar minha primeira tradução. Espaço que, anos e anos antes, tinha abrigado uma apresentação dele, com poemas e algumas de suas canções.

Pois é assim, num movimento de surpresas, que noventa minutos cabem na vida de uma pessoa. Meu primeiro curso de alemão, em 2001, foi num dia chuvoso. Manhã, para um intensivo de um mês, aulas de segunda a sexta. Meu primeiro professor de alemão entrara na sala dizendo “Guten Morgen” e, sem resposta, escreveu no quadro, ensaiando conosco os primeiros balbucios. Não eram peças radiofônicas para crianças, mas já estava, naquele dia, escrito o que o dom – às vezes – não nos tira.

Cheguei em casa um pouco antes do início do jogo. Não sei se meu professor de alemão e o grupo que lhe acompanhava viram o primeiro tempo, viram o gol de Fred aos 39 minutos. Gol em Porto Alegre, naquele estádio lotado e hostil a qualquer visitante [hostilidade que me causa inveja, pois se o jogo de ida, no Maracanã, tinha menos de 15 mil pessoas, a volta, na casa adversária, era naquele inferno azul]. Não sei se voltariam para casa a tempo ou se haveria alguma TV no tal bar, para verem o gol de empate do Grêmio, a pressão mais do que absurda, as defesas de Cavalieri – o mesmo que em falhou feio em 2011, num Fluminense 5×4 Grêmio, porque a vida é assim mesmo – e os acréscimos de quase 6 minutos.

Ficou mesmo 1×1, porque, claro, estava escrito. Bastou traduzir.

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