Gustave+Courbet+-+The+Wrestlers+

a Rodrigo Petronio, meio campista

Olhar para um tabuleiro de xadrez, uma quadra de basquete ou um campo de futebol proporciona, em medidas diversas, a chance de olhar para o mundo. Uma chance rara, porque não temos uma possibilidade real de olhar o mundo desde fora. Uma exterioridade, porém, que acaba por nos incluir, haja vista que também o de fora participa – com certa exceção do xadrez, esse jogo mortal, cujas peças são animadas por um demiurgo mediador e mediado.

Verdade: os jogadores de handball, vôlei, rugby, etc, exigiram presença na lista. Que a tenham, mas aqui o caso é de método, daí a seleção xadrez-futebol-basquete. Porque Borges se incomodava com o futebol, e queria mais xadrez no mundo. Não sei na época dele, mas na atual, xadrez é ensinado nas escolas argentinas – pelo menos nas escolas portenhas. E Borges se esquecia de um dos princípios concordantes entre xadrez e futebol: é preciso dominar o meio-campo. Portanto, o jogo não começa nem na defesa nem no ataque, mas no meio, perturbando algumas teorias excêntricas.

O basquete? A não ser que desloquemos o centro da quadra para o centro de ambos os garrafões, o meio-campo possui pouco valor, pois nenhuma equipe precisa dominar a “meia-quadra”. E aqui podemos pensar que há mais mundos no mundo do que a nossa pretensa universalidade pode considerar.

De volta ao futebol e ao xadrez: as duas metas se posicionam mais ou menos no mesmo lugar: o gol e o rei estão atrás, da perspectiva de quem ataca, e lá devemos chegar – mesmo que no caso do xadrez essa chegada não se dê presencialmente, pois o xeque-mate antecipa a coisa, virtualiza a presença. E por que se torna tão importante ganhar o meio? Porque é de lá que temos uma melhor visão, uma maior proximidade entre os pontos, e, claro, um melhor controle. No caso do futebol, a invenção da bola longa tenta enfraquecer esta importância, mas ainda assim a chamada ligação direta é muito mais um recurso adicional que um princípio.

No caso do xadrez, o tamanho do tabuleiro permite uma maior claridade desse princípio. No futebol, porém, pode se criar uma ilusão de que o meio-campo é mera passagem, afinal, são raros os gols que saem diretamente dali, sejam por chutes ou passes. Fica-se constantemente com a sensação de que aquilo é um estágio, e esperamos mesmo é o ataque – do outro lado, espera-se que defendam.

Verdade: um defensor pode se transformar em atacante, e vice-versa. Mas só quem é já substancialmente defensor e atacante, ao mesmo tempo, é o meio-campo. Tanto que a única posição subdividida, com meio-campistas defensivos (os volantes, cabeças-de-área) e os ofensivos. Além do mais, diz-se do meio-campista “principal”, ou seja, o meio do meio-campo, que ele é regente, maestro, que “faz o time jogar” – demiurgo mediador e mediado? E vão além: dita o ritmo do jogo. Interessante como o mundo não é mesmo estático, e esse “principal” pode estar tanto à frente quanto atrás do meio-campo – pensemos no Pirlo, da Itália.

(também os laterais defendem e atacam – solução interessante para excentrificar a coisa; lembrando que no caso dos laterais, é o mesmo atleta que cumprirá as funções, sem haver um lateral-ofensivo e outro lateral-defensivo)

Houve uma tentativa, em época que aparenta ser recente, mas não o é mais, de usar o líbero como esse ritmador do time. Era o sujeito que ficava lá atrás e, na hora exata, saía, avançava por entre os companheiros, e, entre passes e coordenadas, conduzia a equipe ao ataque. Poucos fizeram isso com eficiência, e o líbero muitas vezes era mesmo um defensor mais recuado, nada mais. (o full back do rugby é mais parecido ao líbero, porém ele necessita do scrum-half para que sua dinâmica funcione corretamente)

Com tudo isso, o meio campo não é o objetivo do jogo, por mais importância que possa ter. E o meio-campista, capaz de concentrar e irradiar, quer sempre chegar a outro lugar, ao mesmo tempo que contingências do jogo – em que há um adversário concreto – obrigam-no a escolher lugares pouco cômodos.

De fora, ficamos observando quem sabe e quem não sabe fazer isso, em que nível o faz; e nem sabemos bem o que nos acontece, quando saímos da exterioridade e, fora do estadio, nos vemos nessa interioridade menos nítida, sem saber ao certo o que ou quem nos observa.

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