433

Cheguei cedo para a estreia do Fluminense no Campeonato Brasileiro 2015. Ainda bem. Porque o Brasil continua o Brasil, e não é fácil entrar num estádio. O alvoroço que tomava as imediações, a fila para comprar ingresso, a fila para ser revistado – por uma policial, é bom que se diga; em tempos de direitos iguais, apalpadas iguais -, tudo isso me fez animadamente demorar quase quarenta minutos para entrar no Maracanã. O público era bom, se pensarmos nos padrões hodiernos, mas os 21.800 não eram nem metade dos que foram ver a estreia do Romário, no 5×1 contra o Cruzeiro, em 2002.

Cumpri o ritual, comprei um mate e vi o desfile de gols perdidos, no primeiro tempo que viu o volante Naldo, do Joinville, ser expulso. Um pouco antes, observara, numa das telas espalhadas pelos corredores do estádio, a indicação, presente no escudo dos visitantes, do ano de nascimento do clube: 1976. Um pouco mais velho que eu. Um time fundado praticamente na metade da ditadura. Não que isso tenha alguma relação, pois realmente não faço ideia da história do atual campeão da Série B. E se tiver, pesa em campo, hoje?

No segundo tempo fizemos uma partida para preocupar até os mais otimistas. Mesmo assim, valeu o 1×0, gol de Vinicius aos 42′ do segundo tempo.

Mais um jogo na carreira, mais uma estreia em campeonato, mais uma vitória. Não fosse a história do Brasil ter aparecido num 433 lotado, já após as 11 da noite de um sábado.

Eu já me perguntava como poderia caber mais alguém naquele ônibus, quando, ainda num dos pontos próximos ao Maracanã, sobem quatro ou cinco pessoas. Uma senhora abre caminho, com seu corpo robusto, após passar a roleta e provocar uma menina que ocupava um dos assentos amarelos, aqueles de idosos, gestantes, deficientes físicos e, eventualmente, jovens dormindo. A menina demora a se levantar, faz bico. O trocador, um senhor excessivamente educado, inclina a cabeça. Eu, ali, recuando o corpo para que a menina se levante, a senhora passe e se sente, e nenhuma reação, a não ser a senhora aumentando as provocações.

Num salto, a menina dá lugar à solicitante e resmunga, diz que teria se levantado logo se a senhora soubesse pedir com educação. Bate boca cotidiano, logo acaba, pensei. O cobrador continua cobrando passagem, mais gente subindo, no outro ponto, eu me ajeitando em meio aquela gente e a senhora fazendo não sei quantos sons com a boca, fazendo beicinho, a menina repetindo umas duas ou três frases feitas. Não vou mudar de lugar, não vou, porque em ônibus cheio prefiro viajar perto do trocador, que está perto do motorista. Já escrevi isso em algum momento, mas há coisas que se repetem mesmo, entra ano, sai ano.

Por que a senhora não parou de provocar e por que a menina não entendeu que, respondendo, aquilo não teria fim, não sei dizer. Sei que de “a senhora não tem educação” a “sua favelada”, foi um breve instante, talvez só o tempo de respirar e articular novamente os sons. A menina chamar uma pessoa idosa de favelada, num 433 abarrotado que a esta altura de aproximava do Estácio, era uma ironia, uma falta de educação rasteira.

Ou seria apenas isso, não tivesse um jovem de rastafári, que entrara no mesmo ponto que a senhora, ter quase voado sobre mim, com os olhos esbugalhados. O engaçado foi a raiva ter tido um lapso de prevenção, pois o voo foi interrompido pela pergunta dirigida a mim: “está com ela?”, o que obviamente neguei, e depois repetida a outro rapaz. Como ele nem eu nem ninguém parecíamos acompanhar a garota, o rastafári elencou uma série de insultos para a jovem, incluindo algumas ameaças e a explicação: “ela – a senhora, claro – é minha mãe” e “se ela não fosse negra, você não teria chamado ela de favelada”.

Pode ser que ele tenha razão. Acredito mesmo que, conforme ele disse, se fosse uma loira de olhos azuis não teria sido chamada de favelada. Para ele, isso era racismo, e como a garota não engolia os insultos e retrucava, o rastafári ameaçou mandar parar o ônibus e chamar a polícia, o que acabaria gerando o meu até hoje inédito ato de arrebentar as alavancas de saída de emergência e descer pela janela.

Não sei se fiz algum gesto, alguma menção que pudesse fazê-lo pensar que eu literalmente abandonaria o barco, mas ato seguido, ele mencionou para a garota a presença de testemunhas e, não menos, se virou para mim, balançando a cabeça. Arregalei os olhos, o que o deixou mais calmo.

Me impressionava que o ônibus continuava parando nos pontos e pegando gente. E não me surpreendeu a fracassada tentativa do cobrador de arrefecer a discussão. Sorte que além de excessivamente educado, parecia sereno, pois nada disse ao “fica quieto, cobrador”, do rastafári.

A coisa só parou quando alguém, lá atrás no ônibus – a esta altura um sujeito abafado por não sei quantos passageiros -, recuperou os anos 90 e gritou, “o Fluminense ganhou, porra!”, ao que alguns responderam com “Nense! Nense!”, socando o teto do coletivo. Admito que naquele instante não me lembrei do que me lembro agora: o dia em que torcedores do Flamengo tacaram pedras num 433 e eu, por sorte, não levei uma pedrada nas costas. Na verdade, a pedra veio direto na direção das minhas costas, mas como a janela estava aberta, os vidros sobrepostos fizeram uma proteção para mim: quebrou o primeiro, o segundo – que poderia ser minhas costas, portanto – só trincou.

A menina desceu antes do rastafári e sua mãe. Enquanto se esgueirava para alcançar a porta de saída, ouviu do rapaz indignado, ainda com os olhos vidrados: “tua noite vai acabar, Exu vai te perturbar a noite toda”. Da calçada, enquanto o ônibus dava partida, a menina gritou: “vai se foder!”.

Do resto, não sei.

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