almirfut

Quando disse para a assistente social, numa UPA (Unidade de Pronto Atendimento), em Copacabana, que meu tio não veria a Copa, ela nem desviou o olhar nem sorriu nem falou nada, apenas balbuciou algo próximo de “é”, logo se dirigindo para minha mãe, quem parecia me reprovar o comentário. Era um 19 de abril, 2013, e ele, vascaíno convicto e futeboleiro ferrenho, não tinha nem idade nem condição familiar para, em 1950, ter acompanhado a Copa do Mundo disputada no Brasil. Naquela noite, ficava sem a chance sequer de uma Copa das Confederações, poucos meses depois.

A morte vem assim, noticiada indiretamente pelo telefone, quando alguém do hospital pergunta se somos da família e pede visita urgente. Considerando que meu tio não estava internado, eu e minha fomos, metrô adentro, com a certeza, a única, que cabe. Curiosamente, aquela ligação interrompera o meu Ben Hur, que eu estava vendo num DVD argentino, e, dois anos depois, continua interrompido, como se aquele filme pudesse ter um tempo só nosso, uma existência relacional e à parte de todas as medições que transitam por aí.

O Vasco da Gama viria a ser rebaixado, e desse desgosto, o segundo em poucos anos, ele se livrou, embora não tenha tido, por conseguinte, a alegria do retorno, em 2014. Nenhum campeonato sentiu a falta dele, nem os 7×1, nada, e acho mesmo que, na família, apenas eu entendi que a superstição de 94, quando minha vó assara um bolo de banana por jogo do Brasil, e as observações de comentarista de botequim do meu tio tinham desaparecido, assim como os velhos Maracanã, Mineirão, Beira-Rio…

Lamentariam, alguns, ele não ter visto a publicação do meu livro de futebol. Não que viesse a ter gosto pelas minhas crônicas, algo que, para ele, certamente soava coisa empolada de intelectual – e não adiantaria eu negar ou reformular ou argumentar. Penso que ver meu livro de crônicas o deixaria até contente, mas não tanto quanto uma vitória contra o Flamengo, hoje, um 19 de abril, dia em que alguém receberá uma ligação, uma notícia de morte, e logo o mundo seguirá, ciclicamente, como os campeonatos que alteram ganhadores, rebaixados, goleadores…

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