juangris

Se há algo que nos salva nesse mundo, é a possibilidade do diálogo. E, nele, a chance de encontrar pares para além dos chamados círculos especializados, porque se a especialidade parece conferir uma profundida exigida e bem vinda, constrói, também, um afastamento, um certo impermeável que, de tradição em tradição, vai da miopia à cegueira.

Faz alguns dias, enquanto jantava num sugestivo restaurante de nome Glamour – numa beira de estrada, para caber a ironia -, fui perguntado pela moça prestes a partir a Paris, para um pós doutorado, por que um time (de futebol) é grande e, num dado momento, se encontra arruinado. Seria administração e nada mais? O mote era algo que eu dissera sobre o VfB Stuttgart, cinco vezes campeão alemão e que, depois de ganhar em 2007 (ano em que foi ainda vice da Copa da Alemanha), entrou numa gangorra que o levou, nos últimos anos, a brigar contra o rebaixamento e, na temporada atual, ser o último colocado na Bundesliga.

Ensaiei respostas, pensando nos investidores, no dinheiro, na massa societária, etc etc. Mas e aí? Se separamos algumas ligas (Brasil, Argentina, Espanha, Alemanha, Itália, Inglaterra), veremos que o número de times grandes é bem reduzido, e que sensações tendem a surgir, aqui e acolá, como o La Coruña, na Espanha, nos anos 90, ou o Lanús, na Argentina. Depois, passa, e ficam os de sempre, embora o Liverpool, por exemplo, nem sonhe a bater os atuais milionários Chelsea e Manchester City.

Pronto, parece que encontramos uma resposta: chega um investidor, põe dinheiro, e tudo resolvido. Neste caso, será que o Red Bull Leipzig se tornará uma força alemã? O TSG Hoffenheim não conseguiu sair do meio de tabela – admito que não sei qual os valores de fato investidos na equipe até então insignificante no país. No Brasil, vimos o Palmeiras da Parmalat ser invencível em 93 e 94 e logo depois deixar o clube no caminho da Série B. Mas o Palmeiras já era grande e, além disso, continua na rota de poder voltar a ser forte, quem sabe. O mesmo vale para a incógnita Fluminense, bicampeão brasileiro com a Unimed e agora vivendo das forças de uma mistura de mate com guaraná.

Nesses contornos todos, o caso é mesmo metodológico: separar países, situações econômicas, épocas, regras e, claro, verificar as idiossincrasias. A força do símbolo, uma ordem quase metafísica, possui uma certa insistência, embora às vezes, muitas vezes, fracasse.

Verdade que, com criatividade, trabalho, aura e o que mais, alguém pode ir longe, mas precisará, sim, do dinheiro. Ou seria acaso que apenas um clube do Nordeste esteja na primeira divisão do Brasileiro? O argumento de que a região sempre fora menos rica e tinha no entanto mais times na Série A me sabe uma resposta que ignora a época, a de agora, agoríssima, em que o econômico tem dado poucas margens ao resto, mesmo que ele, o econômico, tenha estado desde sempre atuante.

Vivemos com saudades e nostalgias, e nem sabemos como esta tal máquina do mundo faz das coisas o que são para nós. A Portuguesa paulista, o América carioca, o Torino, etc etc etc. E aquele grande Novorizontino, quase campeão paulista, derrotado pelo Bragantino. Ou o grande Bangu, vice carioca e brasileiro de 85 – com dinheiro do jogo do bicho, uma espécie de Unimed ou Parmalat menos oficial, digamos.

O clássico Olaria x Bonsucesso representa ainda muito para as pessoas do bairro ou apenas para aqueles poucos saudosos? Em 2007, o Madureira estava prestes a se classificar para a semifinal, fui ao jogo em Conselheiro Galvão, e o público era absurdamente menor do que o dos jogos do General Lamadrid, da quarta divisão argentina. O bairro de Madureira é absurdamente maior que o de Villa Devoto, onde reside o Lamadrid. Cultura? Tradição?

Existem muitas respostas fáceis e aparentemente definidoras. Naquele jantar, a moça me ouviu e ouviu e ouviu. E deve ter pensado, com razão: “esse cara não sabe o que fala”.

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