time85

O tempo não cabe em metáforas. As tantas que o amenizam ou exaltam. Fala-se mesmo em cura, como se a memória fosse capaz de guardar imagens e, numa espécie de coador, ir deixando as emoções passarem e seguirem para não sabemos onde. Talvez seja isso. Deixar o tempo. Sem o perder. Assumindo, entre angústia e conforto, não poder retê-lo.

1985, meu pai já se dispersara pelo mundo, e o Fluminense cantava o tricampeonato carioca, contra o Bangu. Não posso mesmo saber se vi ou não este jogo, pela TV. Mas sei que, por muitos anos, o arrastei como aquele título conquistado graças ao pênalti não marcado por José Roberto Wright, depois do lateral Branco ter abraçado o atacante Cláudio Adão.

Um ano de reviravoltas, com Rock in Rio, com a transição da ditadura para outros ditos, de um campeonato brasileiro estranhíssimo, em que o Coritiba se sagra campeão ao bater o mesmíssimo Bangu, deixando Atlético-MG e Brasil de Pelotas (!) fora da final.

Não sei o que fazia em 1985 a moça que me acompanha para um Fluminense x Bangu, mera terceira rodada de um já não muito interessante Carioca. Na altura dos seus quinze anos, em São Paulo – ou já em Americana? – com o que poderia sonhar a filha mais velha de um casal separado? O que esperar daqueles irmão menores, um deles corintiano que, naquele momento, sofria pela ausência de um título Brasileiro, o que só viria cinco anos depois. E se saio daquele 85 e venho para cá, como será que olha para aqueles anos, para aquele Fluminense x Bangu – que certamente não interessou nada – no momento em que se senta ao meu lado para ver o Bangu trocar as listras vermelho e brancas por um uniforme azul?

Uma partida insossa não indica nem o placar da preliminar – Fluminense 5×0 Bangu – nem o da previsão da moça ao meu lado: 3×1. Tanto que ela, em maestria, modifica para 1×0, com gol chorado. E o primeiro tempo é mesmo isso, com Fred, um dos poucos alentos deste time de incertezas de 2015.

Perco parte do segundo tempo, porque a moça quis pipocas e o Maracanã não possui um sistema eficiente de lanchonete. Na verdade, quase nenhum estádio deste mundo o possui. Basta falar nas filas em Stuttgart, lugar em que pessoas, para evitar a chateação com demoras, perdem parte do jogo para sair antes do intervalo e garantir logo sua cerveja ou refrigerante ou pizza ou sanduíche, etc. Outrora, fui muito crítico desta postura. Não sei se me libertei de afetações, não sei se me “posmodernizei” ou se simplesmente entendi que, dentro de todas as ordens, a felicidade daquela moça ao meu lado valia mais que uns minutos de jogo – sendo aquele jogo sequer de tal grandeza e importância. O tempo a levará. Me levará. E não sabemos qual Fluminense x Bangu será disputado – e se o for – em 2045.

A primeira previsão, a de 3×1, quase se concretizou, depois que o Bangu empatara e o Fluminense, aos 39, teve um menino Robert, nascido onze anos depois daquele Fluminense x Bangu da minha infância, para o 2×1, além de duas oportunidades, Walter e Fred que falharam perto do fim.

Três pontos. Uma vitória. Muita chuva. E o trânsito que não nos deixou ir ao cinema. Nenhum problema. Soubemos aproveitar o tempo que ficou, entre restaurante e uma noite de sono tranquilo.

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