barcocronica

Um fim de semana é muito pouco na vida de um indivíduo e, na operação das distâncias – entre nós e o tanta coisa, como, por exemplo, esta metonímia chamada mundo – um fim de semana não chega nem a ousar ser pouco.
De repente, haverá algum domingo dito inesquecível, por causa de um casamento, de uma final, de um acidente aéreo – com mais de duzentos mortos – ou de um beijo (que tem o hábito desencadeador). Ainda assim, isso não é tanto certo, basta pensar naquele fim de semana em que um romano apaixonado se suicidou, porque sua namorada andava com outro – ou não andava, mas ele pensou que andava.
Isso não é certo. Pode ser anacronismo. Mas, se foi certo, não interessa a ninguém, a não ser numa narrativa qualquer, quiçá nos versos; e é ali, na escrita, que algo poderá ser afetado em alguém. Por enquanto, é esta nossa humanidade. E – ainda – não passa – muito – disso.
E fim de semana lá estava eu, haja surpresa, com amigos, num show do Paulinho da Viola, no Circo Voador; sexta-feira, véspera de um angustiante Fluminense x Botafogo. (Angustiante do ponto de vista alvinegro, pois a Série B é quase única certeza de 2015)
Ir a um jogo de futebol no Rio de Janeiro exige, sei disso desde 1992 – embora tenha ido a um em 1990 – e a humanidade, digo, parte dela, sabe disso também. Uns mais, outros menos, porque os graus e os planos e os níveis são coisas que se digam – também.
Acompanhado – a palavra é namorada, mesmo com angustiante 2015 diante de mim/nós -, ousei, após mais de 300 jogos (328, exatamente), ir ao Maracanã de carro. A primeira sem segunda, espera-se. O trânsito irrita, a UERJ – único estacionamento viável – é cara, os flanelinhas, nem pensar, e, para estacionar longe, melhor que seja realmente longe, e que se vá de metrô, ônibus, trem.
Atrasados, eu, com ingresso, ela, sem, restou comprar no mercado negro, contrariando uma série de princípios e dando um certo desgosto de pertencer ao que não se pertence. Longe das culpas, mas perto do próprio peito, a sorte foi substituir o incômodo da (má) ação pela certeza do sistema – sim, caros, há sistemas na humanidade, queiramos ou não – agenciador (bom ter estas palavras algo ocultas). [Talvez seja toda esta digressão uma mera desculpa para justificar o que não me justifica: o mercado negro]
O acaso nos levou ao melhor lugar. (Seria frase romântica, não fosse apenas o seguinte: atrasados, sentamos logo no anel inferior, inédito para ela – a namorada. Tanto lhe agradou estar ali que ali ficamos. E dali vimos a cabeçada de Édson, já no segundo tempo. 1×0. E a certeza de que o Botafogo não teria forças, que a queda é inevitável – não sei se a do alvinegro ou a de todos (os seres – humanos).
Demoramos bastante até nos levantarmos da cadeira, depois do apito final, e seguir até a UERJ. Nós, acadêmicos (mais ela que eu), parecíamos cumprir um ritual de magia, desejo de superação, de permanência, ou, no caso, desejo de que tudo vá bem, no fim das contas.
Niterói continuava lá, de um modo que pouco nos importava, e deixamos que a prévia de um domingo revelador se encerrasse como convém: num abraço futuro.

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