alemanha2006

Como qualquer coisa – ou pessoa – que alcança uma exposição excessiva, o futebol fica esquecido, e passa a ser muleta ou alvo, desculpa para descarregar frustrações ou elemento justificador da capacidade intelectual de algum indivíduo – se ele, claro, não gosta de futebol.

Certo, o “desencantamento do mundo”, de Max Weber, é anterior à primeira Copa do Mundo, no Uruguai, e ele não poderia prever que o futebol se tornaria esta ilha simbólica em diversas sociedades, até chegar, no mais alto grau do Capitalismo – mais alto grau que conhecemos, não sou medidor de limites – a uma espécie de xadrez com peças humanas, no tocante ao seu interior, e a um tipo de fenômeno sociológico analisado – e avaliado – pelas grandes cabeças – muitas delas, misticistas – em que o jogador, o torcedor e o próprio jogo se tornam objeto estático de pesquisa.

Como o encantamento da ironia ainda não nos abandonou, um7x1, resultado incomum em qualquer liga de alto nível, perturba tudo a sua volta. Muito mais, se ele ocorre numa semifinal de Copa do Mundo. E sem limites, se o dono deste “1” é uma seleção pentacampeã mundial, ou seja, a maior vencedora de Copas.

Falham. Porque não é este time, este que entrou em campo no dia 8 de julho de 2014, a ter vencido cinco vezes, sequer uma – venceram nada mais que uma Copa das Confederações, este torneio mais parecido a uma condenação kafkiana. Quem venceu cinco vezes foi a camisa, o escudo, o nome, ou, se quiserem, a instituição – neste caso, podemos dividir entre três títulos para a CBD e dois para a CBF.

Falham. Porque não é o país que levou goleada, porque este país leva goleadas bem piores fora do futebol, incluindo as acadêmicas, pois certas cabeças ainda insistem em viver desencantadas dentro da mística religiosa do homo academicus, pensando-se – crendo-se, melhor dito – pontífices, oráculos, guias, pastores, condutores, líderes espirituais, doutores com receitas na mão: salvarão todas as almas, curarão toda a humanidade desta tremenda patologia que é a existência – sobretudo a existência do futebol, este breve erro inglês que, tal como o liberalismo, conquistou cantos antes impensáveis deste planeta.

calciofiorentino

O futebol não tem mais lugar neste mundo. Nem a poesia. O desencantamento reduziu o homem a uma série de números, principalmente se eles forem o do salário do mês. Basta olhar o salário desta gente que corre atrás de uma bola e saberemos o quão proibitivo é perder o nosso tempo – o nosso dinheiro – para segui-los. Pois qual é a troca? O que se ganha? Ganha-se ignorância, se muito. Opiofagia primitiva. (Fica por justificar-se os casos do futebol de divisões menores, como as terceira e quarta, cuja movimentação financeira é inferior à da Academia)

Não foi a entrada do Bernard no lugar do William, nem o erro tático de Felipão (Fernandinho, Paulinho, Luiz Gustavo), nem a supremacia tecnológica alemã, nem a pontualidade dos trens. Um 7×1 vai aquém do desencanto. É uma vergonha tão vergonhosa que até mesmo nossas grandes cabeças perdem seu tempo – e seu dinheiro, segundo a máxima – para encontrar razões. (Ficam por justificar-se as vitórias da Argentina contra as desenvolvidas Suíça, Bélgica e Holanda)

No fim, futebol é apenas um jogo. O mundo, apenas o mundo. E um intelectual, um ser humano. Encantado por outras coisas.

 

Si no eres par, tampoco le has tenido:

que par pudieras ser entre mil pares,

ni puede haberle donde tú te hallares,

invicto vencedor, jamás vencido.

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