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Tenho medo dos acontecimentos históricos. Principalmente, quando eles são ao vivo. Porque a memória não pode saber futuro, e o exagero, a declaração exagerada, pode magoar ou mentir – ainda quando quis ser, no instante de enunciação, verdadeira. Certo, amores prometem-se; leviandades, não.

O êxito da Copa do Mundo, no Brasil – eu falo do que ocorre dentro do campo de jogo -, põe entusiasmo nas frases de muita gente. Movidos pela emoção? Ou movidos por alguma coisa que ser bem menos que amor e bem longe de um estado apaixonado? Desconfio. E, se não quero falar pelos outros, falo por mim.

Quando Eduardo Losso me pergunta, hoje, se irei ao “encontro dos filósofos”, amanhã, ou se haverá algum jogo imperdível, respondo, sem meias: “na Copa, não existe jogo perdível. Em 1994, tive séria briga com um amigo que me impediu de ver Marrocos x Arábia Saudita (eu estava na casa dele…)”. E, sim, em 1994, na passagem dos meus 14 para os 15 anos, tive este dissabor, esta marca que, vai saber, ficou muito mais na minha memória que a final da Copa de 2006, por exemplo.

Também hoje, Alemanha x Argélia fizeram o que muitos saíram a chamar de “histórico”. Talvez venha a ser, mas questiono aqueles que, em 1982, com idade de acompanhar a Copa, se lembrem do que ocorreu entre as duas seleções. Ainda: se alguém se lembrou que, num 30 de junho, a Alemanha vencia a Eurcopa de 1996, com um gol de ouro, marcado por Oliver Bierhoff.

Não, não disse que devemos ter uma relação memorizada para cada dia de jogo. No entanto, pergunto: o que pode ser histórico, se não ficar na história – individual, coletiva? Histórico que fica até a próxima (fan) fest(a)?

Em 2010, estive com minha paixão charrúa, por causa daquele Mundial do Forlán, homem que, diferentemente de Recoba, tinha entendido que o Uruguai precisava de alguém para pôr a bola debaixo do pé e dizer “vamos, eu levo vocês”. Eleito o melhor da Copa, Uruguai em quarto, palmas e palmas. E, depois daquilo, o rapaz voltou a ser o que era: coadjuvante nas suas equipes, às vezes, nem isso.

Chegou a vez de James Rodríguez, este jovem que fará aniversário no dia da decisão do terceiro lugar e, aconteça o que acontecer, na sexta, dia 4, diante do Brasil, já deixou seu encantamento na Copa, com promessa de mais, com desejo de mais.

Difícil pensar que ele terá tremedeiras, na sexta, pois jogou no Maracanã, contra o Uruguai, com a chance de ajudar sua Colômbia a uma quartas de final inédita, como se aquilo fosse uma partida de bairro. Tranquilo, confiante, como se aqueles mais de 70 mil espectadores fossem uns colegas de Cúcuta, sua cidade natal.

Não desejo que ele se vá da Copa, mas me fica difícil desejar uma derrota brasileira, por tudo aquilo que pode pesar no falseamento ideológico que parte de derrotas – e também de vitórias. Verei o jogo com uma alegria incomum, sabendo que haverá, de um modo ou de outro, fim, neste 4 de julho, dia de Brasil 1×0 EUA, em 1994, gol de Bebeto.

Também acabarão relacionamentos, aqui e alhures. E aquela menina, que um dia nos tirou o fôlego, pode ser que termine nuns versos, ou que nos seja história, apenas para lembrar-nos do quanto amamos, quando amamos, mesmo sem futuro.

paolina

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