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O coração de Chopin se encontra numa igreja, em Varsóvia. A partir disso, um colega alemão me dissera, nos meus tempos de Alemanha, que o meu caso seria mais complicado, pois deveriam espalhar meu coração por algumas partes, como Rio de Janeiro, Tübingen, Lisboa e Bergamo. Naquela altura, eu sabia do meu destino pós-Europa – Buenos Aires –, mas nem desconfiava qual seria o destino do meu destino.

Um pouco mais de seis meses levou a vida que programara na cidade portenha, e, num dos momentos mais difíceis para mim, fui parar num apartamento à venda, em que o aluguel se fazia possível pagar, enquanto a venda não se concretizasse. No meu quarto, uma cama quebrada – por fim, punha o colchão no piso e dormia assim mesmo – e um armário prometido que só chegaria dois meses depois, e que de armário pouco tinha: praticamente tapumes disfarçados. No quarto do lado, um colombiano, Camilo Hernández, estudante do último ano de Design.

Nos quatro meses em que dividimos esta submoradia – seríamos despejados, após a venda do apartamento -, falávamos do que tínhamos que falar, incluindo o inesquecível Argentina 0x5 Colômbia, de setembro de 1993. Ele me dava novas versões daquele jogo e também do assassinato de Andrés Escobar, em julho de 1994, após a equipe cafetera ser eliminada ainda na fase de grupos, com um gol contra do próprio Escobar, diante dos Estados Unidos. Juntos, fomos a Vélez Sarsfield 1×1 Nacional de Medellín, e, quando já morávamos cada um em outra moradia, estivemos em Tigre 0x0 Millonarios, numa noite com alguma aventura, como briga de torcidas e falta de trem para voltar.

Quando fui embora de Buenos Aires, em março de 2013, deixei para Camilo uma cadeira de escritório e uma mesa. Ele dava início a uma nova vida, assim como eu dera, antes de o conhecer, indo morar com uma moça argentina. O futuro daquilo seria parecido ao meu, com uma separação em pouco tempo. Não demorou muito para que Camilo me desse a notícia, via facebook, do seu retorno a Bogotá, após mais de cinco anos fora.

Hoje, saí do hotel, em Cuiabá, vestindo a camisa da seleção colombiana, presente de Camilo, e fui, até o almoço e do restaurante até o estádio, escutando gritos de “Viva Colômbia!“. Gente daqui, pois os colombianos que cruzavam meu caminho ou nada diziam ou apenas acenavam. Eu, que já fora chileno, aqui – num dia em que vestia um casaco verde (!) da Alemanha – e turco, na Alemanha, recebia esta nova nacionalidade. Como era de se esperar, assim que me juntei a colombianos, num bar próximo ao estádio, para assistir ao segundo tempo de Itália x Uruguai, passei a ser argentino, por causa do sotaque, logo me tornando brasileiro, depois das explicações de sempre.

Entrei muito cedo na Arena Pantanal, pois estava motivado por uma série de coisas, entre elas ser este o meu último jogo desta Copa, a primeira que acompanhei dentro do estádio, o melhor lugar para se ver jogo, como concorda meu amigo capricorniano. Por azar dos sorteios e alguns contratempos da vida, ele não pôde estar em nenhum estádio, o que não o impediu de me apoiar, direta e indiretamente, nesta minha empreitada pelo centro oeste brasileiro.

O clima voltava a ser aquele do primeiro jogo, em que chilenos e australianos eram maioria, diferentemente de Rússia x Coreia do Sul e Nigéria x Bósnia, em que o predomínio do público local atrapalhou bastante o envolvimento com a partida. Neste 24 de junho, uma maré amarela tomava as ruas de acesso, cantando de forma bem mais contida que a dos chilenos. Nas arquibancadas, repetiam-se algumas diferenças culturais, e em momento algum o jeito espalhafatoso e mais gingável dos andinos se fazia presente. Japoneses, havia poucos, e geralmente em grupos, distribuídos por diversos lugares do estádio.

Na escalação das equipes, o que eu temia: James Rodríguez no banco. Coisas de quem entra em campo já classificado. Por sorte, um Cuadrado acima da média e um Honda querendo muito jogo deram o bom primeiro tempo. Kagawa, como imaginado, não era aquele do Borussia Dortmund, como realmente não tem sido, e já há algum tempo.

Na volta do 1×1 que mantinha a Colômbia na rota do Uruguai e deixava os japoneses fora, duas alterações na equipe cafetera. Quinteros, sai, e, sim, James Rodríguez. A outra alteração era a entrada de Carbonero. A despedida de Cuiabá, em Copas do Mundo, começava a ter mais brilho.

Que alegria era ver aquele camisa 10 em campo. Sempre se desmarcando, sempre pedindo bola, sempre procurando alguma opção mais aguda. Que toques elegantes. Cabeça erguida, foi dele um passe magistral para o 3×1 – fora dele o passe para o 2×1 – num momento em que o Japão criava boas chances para o empate. Este terceiro gol trouxe uma cadeia de felicidades. O gol em si, o passe que o gerara e a possibilidade de ver a despedida do goleiro Fary Mondragón, 43 anos, mais de 20 na seleção. E assim foi, por um gesto nobre do treinador argentino José Pekerman.

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Houve lágrimas por todo lado, na hora daquele forte abraço do titular Ospina, à beira do gramado. Eu me lembrava daquele Mondragón do 1. FC Köln, que causara a minha primeira derrota ao vivo em jogos do VfB Stuttgart. Lembrava do texto que tinha escrito, aqui mesmo, apostando na Colômbia nas quartas de final e colocando Mondragón como destaque. Tinha vontade de agradecer a Pekerman por aquele momento e por aquela atitude, em tempos de futebol tão pouco afetivo.

Veio o quarto gol, em bela jogada de James Martínez – obrigado Pekerman, por ter querido vencer o jogo. A última bola da partida foi, com ou sem deuses do futebol, uma defesa de Mondragón, cara a cara com o atacante japonês.

Os jogadores deixavam o gramado, e ficávamos lá a saudar o goleiro. Ele retribuía, com aplausos e reverências.

Na volta, uma caminhada de pouco mais de uma hora – equivocara-me no trajeto – três cuiabanas me pararam, e, tentando um espanhol que não chegava a portunhol, me falavam que ainda era cedo, “beer“, „“beer“. Sabia que aquilo não daria em nada, e fiquei lá, parado, até que uma delas chamou a atenção da mais atirada: “ele é brasileiro“. Quando confirmei, viraram e foram embora. Fiquei ali, sem ser colombiano, nem argentino, turco, e, ao ouvir mais um “Viva Colômbia“, metros a frente, sequer brasileiro. Não era nada, mas estava bastante feliz por ter estado em Cuiabá, por ter visto estes quatro jogos, por este Colômbia 4×1 Japão.

Continuei a caminhada, pensando, novamente, nas pessoas que realmente me querem bem.

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