cancerblog

Dia 21 de junho começa o inverno para quem está embaixo do mundo, e, logicamente, é o início do verão, para os de cima. É, ainda, a abertura do signo de Câncer, e, com ele, de datas de nascimento como a de Machado de Assis, Jean-Paul Sartre e Michel Platini, atual presidente da UEFA e sempre de olho no mandato da FIFA.

Como me ensinaram os especialistas, um signo não se inicia à meia-noite, ou seja, é preciso ver ano a ano a hora de transição, ou seja, quando deixamos Gêmeos para sermos cancerianos, ou seja, os três acima citados podem ser uma coisa ou outra, é necessário saber a hora da vinda ao mundo – ou da saída a ele, pois em tempos de tanta genética, a vinda foi, claro, durante o ato sexual.

Se a Copa costuma ser isso, uma passagem de Gêmeos para Câncer, podemos lembrar de escorpianos que cravaram sua história nela, como Pelé (há quem diga que é libriano), Garrincha e Maradona. Não é pouca coisa. Romário, outro imenso, é aquariano. Iniesta, gol do último título, taurino. Zidane, campeão, com a cabeça, em 1998, e expulso numa final, por causa de cabeçada, em 2006, canceriano. Mas não cabe armar, aqui, uma história zodiacal da Copa do Mundo.

Neste 21 de junho, em que se deu sequência à segunda rodada da fase de grupos, comemorou-se o aniversário do goleiro colombiano Faryd Mondragón (43 anos), homem que, se entrar em campo, será o mais velho de todas as Copas, superando o record de Roger Milla (42 anos, 39 dias). Nos jogos, o dia teve um canceriano, o maior deles, dando a vitória ao seu país, a Argentina, após um sofrimento de mais de noventa minutos contra o corajoso Irã. Se alguém olhar os melhores momentos da partida, verá as duas maiores chances, em duas cabeçadas iranianas, defendidas, e a segunda dela, muito defendida, pelo goleiro argentino. O gol que Messi achou, nos acréscimos do segundo tempo, é mesmo coisa, desculpem-me a tautologia, de Messi.

Se o canceriano gol da equipe albiceleste saiu num horário, quem sabe, ainda geminiano, a nada (?), muito (?) canceriana partida entre Alemanha x Gana foi disputada, com quase toda certeza, sob este signo de água. Se ataque não é o forte de um signo preparado para defender – apesar do citado Messi, apesar de Kempes – e, quando muito, manipular a partida (Platini, Zidane, Zé Roberto…), o ofensivo jogo entre alemães e ganeses deve ter sido disputado sob outro céu. No entanto, se olharmos o dramático da partida e, não menos, sua cena final, cabe uma boa regência canceriana: cruzamento na área, Müller tenta a cabeçada para o gol, acerta o ombro do defensor ganês, cai no gramado, sangrando bastante, enquanto o juiz apita o final e todos começam a se cumprimentar.

Nisso, eu, canceriano, já estava nos arredores do estádio Arena Pantanal, para não me complicar na entrada de Nigéria x Bósnia Herzegovina, cuja presença estrangeira em muito aumentou no que diz respeito à partida anterior, Rússia x Coreia do Sul. Como de se esperar, os locais demonstravam mais simpatia pelos africanos, embora um número razoável de brasileiros pintasse bandeirinhas bósnias no rosto ou mesmo vestia a camisa. O cachecol “Brasil e Herzegovina“ teve seu efeito.

Pela primeira vez, fiquei no nível inferior, desde onde a vista só alcança bem até o meio-campo. Dali em diante, o campo parece ter uns dois metros, e tanto faz um chute de longe ou de dentro da área, tanto faz um atleta sofrer falta ou pênalti, tudo parece perigoso, ameaça de gol. Como de costume, estava cercado por pessoas totalmente desinteressadas e desconhecedoras do jogo. Houve quem me perguntasse quem era o craque da Bósnia, e, ao ouvir minha resposta (citei os números 11, 10 e 4, acrescentando nomes, e ainda falando da surpresa, para mim, que era o número 8), teve a ousadia de me perguntar onde jogam. Como alguém se mete numa Copa e não sabe onde joga o Dzeko, campeão inglês pelo Manchester City? A minha frente, um garoto falava ao celular, durante toda a partida, gritando o seu posicionamento na arquibancada e pedindo a alguém para que ficasse de olho, pois ele iria aparecer nas câmeras. Desagradáveis mesmo, eram os que estavam na fileira atrás de mim: dois casais, sendo um dos homens um chato que passou a partida inteira gritando “vai, Corinthians“ e repetindo “este 11 (Dzeko) não joga nem no XV de Jaú“.

À noite, de volta ao hotel, tentei assistir a um daqueles programas sobre futebol. Entendi por que quem não gosta de futebol tem tanta raiva do futebol. Também tenho. As repetidas baboseiras, incluindo esta coisa de “torcedor de Copa do Mundo“ como um indivíduo alegre, feliz e família (o que, na linguagem deles, é isso que me acompanha a um estádio: um sujeito que nada sabe e nada quer saber do jogo, querendo apenas estar no evento). Desliguei a TV quando um dos pomposos comentaristas declarou que, com o número de argentinos no Brasil, o risco é muito alto, já deveriam ter fechado as fronteiras. Vale argumentar alguma coisa contra um sujeito destes? Ele fala para milhares com a responsabilidade e o conhecimento de quem debate, bêbado, no bar da esquina.

Não vi a lua, não sei como estava a primeira noite de Câncer. Pensei no signo oposto, Capricórnio, que me apazigua e me encanta.

 

capricornio

 

 

 

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