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Club Atlético General Lamadrid, quarta divisão argentina

texto dedicado a Eduardo Losso, que não gosta o futebol

 

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Mercedes Sosa

 

Não sabemos a quantas andamos politicamente, porque a História costuma rir bastante de certas verdades, de certas convicções do presente. E, como escrito antes, a Copa do Mundo tem sido alvo de grande atenção, exceto, claro, por causa do futebol, cuja complexidade merece debate de quem o gosta, a partir de elaborações que não vão além do jogo, embora tanto fora dele exista.

Nenhuma novidade o esporte cair nas mãos políticas, no sentido ideológico, e podemos pensar em Berlim 1936, em Moscou 1980, Los Angeles 1984. No futebol, o famoso exemplo de 1970, quando a ditadura se apropriou de uma equipe que encantou o mundo, e cujas linhas gerais continuam a ser trabalhadas em provas e escolas. Porém, com olhar mais fino, dever-se-ia pensar no Campeonato Brasileiro de 1971, projeto de nacionalização que explorou o futebol, até ficarmos com um legado que até hoje nos custa o preço dos jogos mesquinhos entre CBF e federações estaduais.

A Argentina conhece isso, também conheceu Copa e ditadura, em 1978, viveu um desabafo – perigoso, sempre perigoso – dos dois gols de Maradona, contra a Inglaterra, em 1986, ou seja, quatro anos após a humilhante derrota nas Malvinas, e, na esteira da mesma guerra, contaminou-se de ódio em relação aos chilenos.

Em 2012, estive no estádio Libertadores de América – ironia é um infinito -, para Independiente x Universidad Católica. Durante o movimentado 2×2, escutei, estando no meio da torcida visitante, acompanhando o meu flatmate, o chileno Nicolás Barnao, o canto vindo da arquibancada dos argentinos: Solo le pido a Dios, que se mueran todos los chilenos, soy del Rojo y de Argentina, no se olvida la traición a las Malvinas, melodia inspirada em música cantada pela argentina Mercedes Sosa, cuja postura política vai, certamente, contra esta má aprorpiação. A mesma música, com ares mais terríveis, ouvimos no ônibus, enquanto voltávamos para casa. Imaginei que Nicolás perderia o controle e teria alguma reação que me levasse ao embate físico, pois não poderia deixá-lo sozinho. Por sorte, ele soube apenas abaixar a cabeça e seguir a viagem, como se nada acontecesse.

Hoje, o Chile ganhou, como ganhara aqui em Cuiabá, há alguns dias. Classificou-se, eliminando a campeã mundial, Espanha. Apresentou um futebol de intensidade contagiante  e passes rápidos. O treinador Sampaoli, argentino, parece seguir um pouco da escola do argentino Bielsa, quem comandara o Chile em 2010. Um pouco antes desta importante e imponente vitória, mais de 70 chilenos invadiram o Maracanã, destruindo instalações do centro de imprensa e causando um tumulto danado. Foram detidos e, segundo informações da imprensa, têm 72 horas para sair do país, ou serão deportados.

Circularam fotos-piada, fazendo referência à colonização espanhola. A mesma, lembremos, que colonizou a Argentina. Fragilidades, porque Alexis Sánchez é do time de Messi, em Barcelona – com ações políticas para separar-se da Espanha – e Arturo Vidal joga com o não convocado Carlos Tévez. Eu conheço argentinos e chilenos, bem mais os primeiros que os segundos, e vivi bons momentos com todos eles, assim como já me indispus com ambas as nacionalidades.

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Após Chile 3×1 Austrália, uma foto para dedicar a um amigo chileno, morador de Nova Iorque

Pode ser que em algum momento a lógica da representação tenha tido sua força. Já não precisamos mais dela, embora precise – eu, claro – de seleções, para a Copa do Mundo. Aos poucos, a coisa ficará obsoleta, ou voltaremos aos tempos da infância, em que num dia eu era o atacante alemão Klinsmann, noutro, o goleiro uruguaio Siboldi, e, muitas vezes, era mesmo Fernando Galo, zagueiro de um dos núcleos juvenis do Botafogo, terceiro colocado no Torneio de Núcleos, em 1995.

E nem falamos de Alemanha, Bélgica e, sobretudo, Suíça… O futebol não representa nada, mas o frango de Akinfee e o golaçõ de Cahill, entre tantas coisas, importam pra caralho.

 

brasileiro, chilena, francesa e chileno, em Buenos Aires

brasileiro, chilena, francesa e chileno, em Buenos Aires

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