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O debate em torno da Copa do Mundo no Brasil é interminável e atrapalhado por uma série de bandeiras levantadas que visam muito mais a uma disputa pelo poder – mesmo que seja um mero poder de “vencer um debate” – que a pensar soluções para questões de interesse, digamos, geral. No meio disso tudo, o futebol, esquecido, extremamente esquecido, seja pelos apoiadores da Copa seja pelos que a repudiam. A própria FIFA, promotora do evento, trata de pôr o futebol em qualquer plano que não seja o primeiro.

Em algum momento desta humanidade, o futebol acabará, pois a sociedade caminhará para algum lugar em que o futebol será ou anacronismo ou esquisitice. Em algum momento, haverá um pequeno grupo, resistente, tentando preservar o futebol – isso não deve estar longe. Em algum momento, o futebol se juntará ao calcio fiorentino e terá seu pequeno museu, não em Florença, mas no Rio, em Londres ou em Munique. Quem sabe, em Buenos Aires, o lugar mais propício para ser a última terra do futebol.

Por enquanto, há Copa, e dela falo.

Meu Mundial começou às 5 da manhã do dia 11 de junho. Poucas horas depois, descobriria, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, que o voo das 7 passaria a ser das 18. E assim foi, numa viagem com escala em Goiânia, até minha chegada a Cuiabá, às 21:30, horário local.

Nem defensores nem detratores da Copa parecem ter pesquisado muito sobre a organização do evento, de modo que faz bem anunciar êxitos e defeitos do programa “Cama e café”, iniciativa do governo para promover maior interação entre forasteiros e população local e baratear custos de hospedagem. Além disso, em cidades como Cuiabá, procurava-se amenizar o problema de falta de vagas para tantos torcedores vindos de fora da cidade, do estado, do país.

No entanto, apenas três anfitriões puseram preço abaixo do mercado hoteleiro, e alguns quartos em casa de família chegavam a custar 400, 500 reais. A comunicação entre hóspedes e programa também era ineficaz, pelo menos em Cuiabá, e a mesma reclamação faz meu anfitrião, dizendo-se pouco amparado pelo programa. De todos modos, a existência do “Cama e café” foi o que me possibilitou encontrar uma hospedagem pagável e conhecer e conviver com uma família daqui, com um dia a dia pouco alterado pela Copa – a exceção fica, claro, pela rotina de assistir aos jogos, pela TV.

No meu primeiro dia aqui, um 12 de junho na espera pelo jogo do Brasil, fui levado, de moto, para almoçar, num simpático local das redondezas do bairro Cidade Verde. Antes, passamos por uma oficina, onde conheci um torcedor do Mixto, orgulhoso de sua equipe ser a maior do estado, e muito animado com as vezes em que viajou para enfrentar os grandes do país. Da partida, não muito o que falar. Não sei se a cidade ficou em silêncio, mas o bairro comemorou sem muita euforia os 3 gols contra a Croácia. De noite, o anfitrião, seu filho, de nove anos, e eu passamos de carro pela FIFA Fun Fest, mas decidimos não entrar. Pelas ruas e avenidas, chilenos, aos cantos, aos gritos, agitando bandeiras e braços.

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Dia 13 tinha a expectativa, a tensão de uma estreia: pela primeira vez, após 691 partidas, estaria eu num jogo de Copa. Para muitos, uma tremenda babaquice; para outros tantos, algo incompreensível; e ainda há um terceiro grupo, um pouco menor, de gente que, fazendo ações parecidas, queira julgar o outro. Assisti a México 1×0 Camarões, enquanto almoçava, e, mais tarde, o primeiro tempo de Espanha x Holanda. Saí de casa, acompanhado de um torcedor fanático do Brasil de Pelotas, pensando que aquele 1×1 acabaria em vitória espanhola ou mesmo empate. Só mais tarde, já dentro da Arena Pantanal, um australiano me diria, equivocadamente, o placar de 4×1 a favor dos holandeses.

O clima de um jogo de Copa, no estádio, é bem mais árido que as festivas televisões tentam mostrar. Até um discussão áspera entre um australiano, cuja camisa indicava “Jesus”, e um chileno, chegou a beirar o embate físico. Certo que nem todos estão ali pela atenção ao futebol; sobretudo os brasileiros pareciam estar ali por estar, ou eu que dei azar de ter interlocutores desinteressados. Um deles, coma camisa do Chile, não me acompanhava na conversa sobre Marcelo Díaz – um desconhdio, para o recém convertido chileno – e ainda outro ficou extremamente atônito com minha queixa sobre Gary Medel na zaga, invenção de Sampaoli. Penas.

Gostaria muito de falar da partida, de como este Chile me confirmava as apostas, até os 20 minutos do primeiro tempo, e, de repente, desandou. Levou o primeiro gol, quase levou o empate, no segundo tempo (gol anulado), e fez o terceiro, nem eles sabem como, porque jogaram muito mal. Gostaria de falar sobre outros jogos, os que se seguiram na semana, mas a Copa possui este exagero, este ritmo incapaz de abrir tempo para o sabor. Jogos e mais jogos, hoje, dia 17, já volto ao estádio, e começa a segunda rodada, para Brasil e México.

Se houver tempo, poderei escrever algo de Rússia x Coreia do Sul. Mas vale ter mais coisa num mundo tão cheio?

 

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