MauricioPlanel(imagem: Mauricio Planel Rossiello)

Inicio com um trecho de Celso Furtado, na introdução de seu os ares do mundo: “Com o passar do tempo, dera-me conta de que a fraqueza maior do Terceiro Mundo estava no plano das idéias: éramos colonizados mentalmente, por um lado, e por outro permanecíamos prisioneiros de velhas doutrinas ‘revolucionárias’ que haviam passado de moda nos centros metropolitanos”.

O futebol – os esportes, em geral – ensina que para derrotar o outro é preciso não apenas habilidade e aptidão/preparo físico, mas uma técnica que inclui, sem menos, o conhecimento dos meios para se alcançar este simples objetivo. Não por acaso, termos muito próprios aos militares são usados constantemente, como os já mais que estabelecidos “defesa” e “ataque”.

Não se trata simplesmente de escolher a postura – mais defensiva, mais ofensiva, equilibrada, etc. Mas, sobretudo, de entender o tempo e o outro. Uma análise magistral disto que falo pode ser lida em Inverting the Pyramid, de Jonathan Wilson. Nesta obra, ele aborda as nuances táticas ocorridas no futebol, com inúmeros exemplos, desde clubes a seleções.

Portanto, enfrentar a Espanha ou o Barcelona atuais, com uma tática dos anos 70, por exemplo, seria a provável derrota, mesmo que possamos – ou queiramos – compará-los com a Holande de 74. O próprio Luiz Felipe Scolari, cuja figura parece afastar-se, por vezes, do modo como entende o futebol, soube ser um “Terceiro Mundo” mais inteligente que o de Mano Menezes. (Admito que, à altura da troca, posicionei-me em favor de Menezes, pensando que ele conduzia algo mais adiante no futebol nacional). Felipão, esta figura menos terceiromundista que Maradona, surpreendeu(-me) a não aceitar ser meramente colonizado – erro que desconfio ser o de Menezes – nem cair nas tentações das “velhas doutrinas”. Obviamente, falo isso no que se refere ao jogo, sem considerar as estranhas considerações políticas do treinador da seleção.

A Copa será, como esperamos, mesmo sabemos, algo bem além do jogo, por diversas razões, algumas mais claras que outras. Resta(-nos) saber, ou mais que saber, atuar, atentos à crítica de Celso Furtado. Não para o seguir como um “guru que nos guia às verdades” – perigo comum e presente, no Brasil -, mas para não deixarmos, se é que o queremos, o adversário ganhar o jogo.

O campo, conhecemos. Ou deveríamos.

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