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O futebol é, ao lado rugby, um dos esportes mais medievais da nossa chamada Era Moderna – já feita, há algumas décadas, pósmoderna. Não ignora a pretensa precisão científica, pois dela faz uso, e abriga mística e magia. Não as magias montadas em batisdores ou escolas de marketing, pois estas, também presentes no futebol, não passam de usos mesquinhos e, se bem olharmos, são ações que mais despromovem o jogo – em nome de outras promoções – que o evocam.

Na linguagem mais corriqueira do futebol, ouvimos que determinada equipe não vencerá, pois “não tem camisa”, ou que certo jogador não rende bem na seleção, já que “a camisa pesa”. Nelson Rodrigues, tricolor convicto, afirmara, em crônica, que chegará um dia em que o Flamengo não precisará entrar com jogadores em campo, bastará pendurar a sua camisa no gol, para derrotar o adversário. Fala-se, ainda, em alma de um clube, e, não por acaso, o Flamengo não pode vencer com Mano Menezes, mas atropela os adversários quando seu comandante é Jaime de Almeida e sua linha de frente é uma cavalaria montada por Paulinho, com retaguarda de Elias e Luiz Antônio, e Hernane como executor.

A Copa do Mundo, este circo itinerante, chegará ao Brasil ano que vem, trazendo, pela primeira vez na sua história, a Bósnia e Herzegovina, quem terá a difícil e apreciável missão de estrear contra a Argentina, no Rio de Janeiro. Estarão, ali, dando o ponta-pé inicial, com o claro desejo de concretizar o eterno retorno, quando da disputa última. Começarão, a 15 de junho, um enfrentamento para estar, no mesmo lugar, em 13 de julho.

Para isso, a Bósnia terá de contar com muito mais que apenas bom futebol, que, no seu caso, não é propriamente o da primeira linha de favoritos. À Argentina, por sua vez, bastará eliminar os aparentes frágeis rivais – a citada Bósnia, Irã e Nigéria – e seguir um caminho que, na ordem mais esperada, só teria um rival de peso nas semi-finais (existe, no entanto, alta chance de Messi e Cristiano Ronaldo se verem nas quarta-de-final). E, aqui, a história pesará naqueles ombros cobertos de celeste.

Em 1986, Maradona desmontou uma Inglaterra, que, poucos anos antes, desmontara os frágeis militares argentinos, nas Malvinas. Havia mesmo uma dor, naquele povo, e a narração de Víctor Hugo Morales, em tempos de narradores menos talhados previamente por corporativismos, deixa-nos entender melhor isso. Ainda que Morales seja uruguaio de nascimento, e, sejamos rigorosos: a narração pode ter sido mais uma emoção com o jogo que propriamente com a recordação das Malvinas. Sem embargo, há-de imaginar-se a recepção daqueles gritos e daquele choro, no coração dum torcedor argentino.

Ao Brasil, a Argentina chegará pensando que pode ser ela a dona do mais novo Maracanazo. O sorteio já lhe permitiu esta chave de abertura do estádio que receberá a final. Permitiu-lhe, ainda, uma semifinal no dia 9 de julho. Basta vencer o grupo. Basta avançar. Qual o uniforme os jogadores usarão no dia em que o país estará celebrando 198 anos de independência? Se a Espanha vencer seu grupo e avançar, seria a semifinal mais simbólica história das Copas. Mas é pedir demais, porque esta Espanha, bicampeã europeia, campeã mundial, parece ter ficado presa em si mesma, haja vista os confrontos contra Itália e Brasil, na Copa das Confederações.

Como a ditadura, em 78, como o povo doído pelas Malvinas, em 86, um título conquistado no agora gigante econômico Brasil, com vitória em dia de Independência e abertura e fechamento do outrora “maior estádio do mundo”, fundamenta-se para uma nação em grave crise econômica, fundamenta-se para um sofrimento nacional – brasileiro, evidente – que traria aos anfitriões a eterna escrita do livro de Stefan Zweig, Brasil. Um país do futuro.

Por sorte, a História jamais se escreve – e inscreve – antecipadamente. Mesmo com toda mística.

 

porque yo penando vivo,

y naides se muestre altivo

aunque en el estribo esté,

que suele quedarse a pie

el gaucho más alvertido.

 

martinfierro

 

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