terceirafabrica

Como já anunciado em outras crônicas, meu amigo poeta passou a ser, também, amigo cronista. Escreve na fanpage do programa de rádio que o abriga, aos domingos. Programa esportivo, mais bem futebolístico. Ele – meu amigo poeta, não o programa – percorre outros caminhos, como a poesia e a crítica literária. Sua atividade renumerada, ou seja, aquela que lhe garante o sustento, é a de professor, cuja função, sabemos, é educar. E isso – sabe ele, sei eu, sabem todos que querem saber – anda na contracorrente do mundo, ainda mais neste mundo em que parte dos indivíduos resolveram se apropriar do termo para transformá-lo em sinônimo de “preparar ao mercado de trabalho”.

Não. Educar, por suas tantas vertentes, encontra-se com formar, e, nenhuma surpresa, está logo ali com informar, palavra tão repetida, tão tida como função da imprensa. A reformar também somos levado, e para ficarmos com talvez a mais alta de todas as reformas, pensemos na luterana, na Alemanha, no século XVI. Isso gerou, claro, a contrareforma.

Porque, enquanto humanos, só nos deformamos após a morte – para alguns, nem depois disso -, a não ser que consideremos a forma do corpo como a única forma possível. Do nascimento à morte, portanto, a formação é ininterrupta, e quando alguém diz “não estudo mais, já acabei dos estudos” e similares, é mesmo de causar espanto.

Aprender a ler – ser educado a ler, portanto – não é decodificar. Isto é um passo, o primeiro. Ocorre processo semelhante, quando dos estudos de música. Antes de ler uma partitura, aprendemos a identificar os mais variados símbolos, e, lentamente, formamos um conceito mais amplo daquela linguagem. Obviamente, não é a música, assim como não é a linguagem verbal, aquilo que está somente escrito. A precedência do som, para ambos os fenômenos, não se ignora. No entanto, é na notação, é na fixação do som – da música ou da linguagem verbal – que temos perenizado obras e ideias.

Formar-se nos permite formar melhor os conceitos, aclarar ideias, mesmo que para contrapô-las, contestá-las, derrubá-las. Árdua tarefa. Exige dor.

Pois meu amigo poeta escreveu uma crônica sobre o movimento “Bom Senso FC”, atual manifestação dos jogadores de futebol, gente que reivindica mudanças no saturado e corrupto modelo do futebol brasileiro. Para a crônica, usou-se, como de costume, uma foto. Encontramos o ponto agudo.

A foto de jogadores sentados, de braços cruzados, como ocorreu em todas as partidas desta rodada. Por acaso ou talvez nem tanto, era do jogo Vasco x Cruzeiro. Mas nada havia, no texto, sobre esta partida que gerou, como de praxe na má formada imprensa brasileira – mundial, convenhamos – um tolo sensacionalismo, a partir de um vídeo recortado, meros segundos em que Júlio Baptista, do Cruzeiro, teria dito ao vascaíno Cris, “faz logo a porra do gol”. Cravar, por estes segundos, que o Cruzeiro entregara o jogo é apresentar-se como cafajeste, irresponsável ou ingênuo. Não posso julgar se houve ou não a “entregada”. Mas, se houve, não é com este resquício de diálogo que poderei provar alguma coisa. Um texto é maior que uma foto, é maior que uma frase manipulada – deformada.

Nada havia, repito, no texto do meu amigo poeta, sobre este jogo. O texto tratava exclusivamente da questão do “Bom Senso FC”, movimento extraclubístico. Porém, foi possível ler o comentário de um cidadão que se apresenta como Danone VP: “Ei cruzeiro vai tomar no cu entregou o jogo contra o vascu”.

É o que chamamos derrota.

Anúncios