bruxa

 

Desconheço, e admito que desconheço, origens e desenvolvimentos do que consideramos Dia das Bruxas. Sei a data e ouço reclamações cá e acolá a respeito de uma norteamericanização da cultura. Desconfio. Primeiro, porque esta invasão cultura, que não é nenhuma novidade neste mundo – apesar da facilitação tecnológica – rebate-se em diversas esferas, entranha-se por subjetividades das mais variadas. Segundo, porque as bruxas são mais antigas que o país que – diz-se – propõe e importa a tal festa dos doces ou castigos.

No futebol, que de norteamericanização só teve breves propostas, até hoje sem sucessos significativos, também temos a bruxa, pelo menos no Brasil. Ela anda junto com a zebra – ou andaria montada na zebra, dispensando a vassoura? Basta um time fraco derrotar um gigante, para ouvirmos que “a bruxa está solta”. Num esporte tão medieval, como o é o futebol, a bruxa tem sua razão de ser. O problema – do futebol e da bruxa – é estar num mundo de pouca aura, inexistente (ou inevidente, melhor dito) sublime: mundo surdo e cego ao símbolo, à magia, a leituras desmercantilizadas daquilo que, nem sempre – ou não-somente – é produto. Por sorte, vez ou outra aparece um Martín Caparrós para recordarmos o fantástico de um Palermo sob águas, a deixar a Argentina dentro de um Mundial (2010).

O Campeonato Brasileiro deste ano não quis saber de bruxas nem de zebras. Qualquer um pode derrotar qualquer um, em linhas gerais, e, com exceção das duas pontas – Cruzeiro e Náutico – todo o resto fica em aberto, podendo um time sonhar com Libertadores e, ao mesmo tempo, flertar com o rebaixamento. Isso, a 7 rodadas do fim.

Podemos ter dois cariocas, Vasco e Fluminense, rebaixados, e isso será meia-surpresa, se tentarmos conectar o ano passado com este. No campo, naquilo que se faz em campo, surpresa nenhuma. Também a Portuguesa, time que parecia ter reagido, pode entrar no rebaixamento. Ou o Coritiba, após passar da briga pela liderança para um desfiladeiro, retornando a sonhar com a permanência, havendo encaixado duas vitórias supremas: líder e (então) vice-líder. O Flamengo voa na Copa do Brasil, vê-se perto de uma final: se perder o clássico contra o Fluminense e as duas partidas seguintes (Goiás e São Paulo), estará a 4 rodadas do fim e, certamente, ameaçado de repetir o Palmeiras do ano passado.

A roda do tempo tem dessas coisas. O problema é quando ela passa por cima. E desde cima e desde baixo, mineiros e pernambucos sorriem. Porque até a certeza do rebaixamento é menos dolorosa que a tortura.

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