ingmar

Os circuitos de coincidência da vida de uma pessoa dependem de um certo acaso, e, não menos, da capacidade de dimensionar estes tão estranhos pontos de encontro, ou, ainda, de transformar em ponto de encontro aquilo que sequer seria acaso. Uma arte narrativa, portanto, ora tipicamente ficcional, ora biográfica.

Quem me conhece sabe que inicio cada Campeonato Brasileiro pensando nos pontos necessários para fugir do rebaixamento. E não importa se no ano anterior a equipe – o Fluminense, no caso – se classificara entre os quatro, três melhores. O Brasileiro de pontos corridos, se não é o mais bem jogado deste planeta, é dos mais disputados, de repente só tão equilibrado quanto o Argentino, que, por dividir-se em dois, perde um pouco do peso comparativo. E como não começar preocupado, após o Olaria ter sido rebaixado no Carioca?

A dinâmica é simples: pela editora Oficina Raquel, Marcelo Paes tinha publicado, no princípio de 2013, seu excelente trabalho sobre a conquista da Taça de Bronze, algo como a atual Série C, em 1981. Único título nacional do Olaria, o lançamento da obra contou com ex-jogadores e, brilhante, com a referida Taça, em vento nas dependências do clube do bairro homônimo. A equipe já vinha de uma Taça Guanabara frouxa, e não houve jeito, no segundo turno, de mudar o rumo.

Publico meu livro de crônicas de futebol, pela mesma editora, enquanto o Fluminense se arrasta perto da fronteira do rebaixamento. Na rodada anterior ao lançamento, uma derrota contra o Santos, na Arena da Grande Tijuca, minha única ausência neste Brasileiro, pois justamente no mesmo horário assistia à Carmina Burana, no Municipal. Fortuna? A rodada seguinte, um 2×2 contra o Atlético-MG, em Belo Horizonte.

Com a reação de Criciúma e Portuguesa, nem a nossa sequência de três jogos invictos (venceríamos o Bahia e empataríamos com o outro Atlético) nos oferecia o ar necessário. E, assim, chegávamos num sábado pós-sexta-feira 13, para enfrentar, às 21, a Lusa.

O Fluminense resolve faturar trocados a mais com a sua fornecedora esportiva e volta à carga com uma camisa laranja. Visto a minha, a 6 do Paulo César, que pegara em 2001 (2002?), na finada Geral, quando ele a atirou para os torcedores. Acompanhava-me Carmelo Tamburello, quem me ajudou na luta para não perder a camisa, no puxa-puxa com os outros geraldinos. Ele esteve no lançamento. E fizera parte da torcida, no fim dos 90, anos da sequência A-B-C.

A equipe paulista vinha de forte vitória contra o Vasco, no meio de semana. A partida ocorrera um dia após a outra partida, a de Melina Galete, vascaína que fora, que coisa, estudar em Portugal. Um Lusa x Luso pelo Brasileiro, depois de um Brasil 3×1 Portugal, amistoso disputado nos EUA, enquanto ela cruzava um oceano, não mais o mesmo, mas ainda assim Atlântico.

Melina viaja um pouco antes de completar 29 anos, época parecida à minha, pois também pouco antes de completar 29 anos, fui estudar na Europa. Neste ano, o Vasco conheceria o caminho para a Série B. Vingança? Inversão histórica?

O juiz apitou o fim do primeiro tempo, 0x1, gol de Diogo. Levantei e segui o filho do meu amigo poeta, a quem avistara de longe. Com ele e meu amigo poeta, estivemos, em duas oportunidades, no falecido Maracanã, para jogos do Flamengo. Num deles, Flamengo 0x2 Internacional, atuação impecável de Alex, e um amigo que me consolava, num 2007 pré-Europa, a não-volta de uma paixão, uma pisciana de 4 de março.

Sem meu amigo poeta, vascaíno, mas com seu filho, sofri na dura vitória contra o Emelec, na Libertadores 2013, e, pelo mesmo torneio, soubemos, juntos, nas arquibancadas de São Januário, que o 0x0 contra o Olimpia (PAR) decretava a iminente eliminação, que realmente viria, em Assunção.

Ele esteve no lançamento do livro, 3 de setembro, e inclusive trabalhou, sendo um dos responsáveis pelo caixa. Se ele ainda não tem o livro, é porque esperamos a volta do desenhista, para que o autógrafo seja digno e completo. E se ele não recebeu o livro naquele dia, foi porque, sem menos ou ainda menos, foi embora. De 4 de março é a ex-namorada do botafoguense desenhista, Vinicius Mitchell, quem, agora, visita a mãe, no Alabama, nos Estados Unidos.

Longe do sul norteamericano, mas ao sul do Brasil, estive morando, antes do retorno, em 2013. E, lá, convivi com uma criança de 4 de março, filho de outra namorada, a torcedora do Vélez que carrega, no livro em questão, dedicatória.

O filho do meu amigo poeta e eu nos sentamos para rezar o segundo tempo. Do nosso lado, um cidadão que ora me irritava, por tanto pessimismo e mau augúrio, ora me comovia, pela forma genuína com que torcia. Depois do gol de empate, pênalti convertido por Rafael Sóbis, ele quase foi às lágrimas.

Ainda teríamos debates sobre substituições, em que Luxemburgo, por três vezes, realizara mudanças diferentes das do meu gosto e provara, a mim e a quem me tivesse ouvido, o quão errado podemos, às vezes, estar. E um segundo gol, que eu considerei de Sóbis, na hora, mas que o placar mostrara – com razão – Wágner. “Foi forte a porrada”, disse-me o filho do meu amigo poeta, em referência a algum soco ou qualquer coisa semelhante que eu o tenha dado, na comemoração.

Pouco antes do juiz apitar o fim, disse a ele que a crônica seria do Edinho. Sempre vaiado, muitas vezes sem critério, o camisa 5 e, naquele jogo, capitão, jamais se esconde, jamais simula contusão para ficar de fora em momentos de outras glórias que não sejam a de erguer uma Taça.

E o filho do meu amigo poeta, que começa as aulas na faculdade de História, esta semana, entendeu o que seja tempo e escrita, o que seja, portanto, história. Começa ele uma etapa, na Universidade de onde saí para a Alemanha, onde conheci a citada pisciana de 4 de março, e onde, por coisas desse estranho cosmos, seu pai, vascaíno, começou a dar aulas, no ano do rebaixamento da equipe da Colina.

Anúncios