Augúrios não se medem. Frágeis determinações às quais nos agarramos mesmo fora da crença. Em tempos de memórias curtas, logo se convertem em presságios vistos após o fato, evidentes sinais que justificam o fracasso.

O sábado chuviscoso e o Vasco por diante anunciavam, por si, dia desforme. Porque me basta 1995 para saber que a melhor coisa que devo fazer, num jogo contra a equipe cruzmaltina, é ficar em casa. Ao 0x0 de 95, gol legítimo de Renato Gaúcho, pessimamente anulado, fui. No octangular final, perto do fim, quando necessitávamos mais que milagres, entendi: fiquei em casa, sem TV nem rádio, para comemorar o 3×2, gol de Leonardo, dando-nos a permanência na luta pelo vindouro título.

Complicam mais o dia: Sorrentino, meretíssimo, vê vitória do Fluminense em todos os cantos, inclusive em Sarandí, na Argentina; menos no Engenhão. Tanto que sua dignidade lhe trouxe a mais correta das decisões: não ir ao estádio durante a parte final do Brasileiro 2012. Cometeu breve deslize, indo contra o Grêmio: 2×2.

Não sei se ele esteve no Engenhão nesta partida que começa, para mim, com um corte no polegar direito, ferida causada pela ponta do livro que carrego (à curiosidade: Fútbol todotiempo, de Carlos Peucelle). Isso, ainda estação Central do Brasil. Uma gota de sangue ficou no chão. As outras, no papel, o mesmo das primeiras linhas desse texto.

Um vendedor de bebidas, com sua caixa de isopor e gritos, salvou-me de pintar o vagão. Comprei refrigerante e apoiei o dedo na gelada lata. Ao ver meu dedo, ele afirmou que esse tipo de coisa só acontece com quem tem sangue bom. Retruquei, preferia ter bom resultado no jogo. Ele nada disse e foi embora, continuar suas vendas.

O primeiro tempo foi supremacia tricolor. Bola na trave, incrível chance perdida, na pequena área, e posse de bola, com constante subida pela direita, através de um Gum aberto, Bruno avançado e Wellington Nem na esquerda, provocando um desbalanço no sistema defensivo vascaíno. De todos modos, 0x0. E o Fluminense no seu soberbo ritmo.

Se um indivíduo tem de falar a verdade, falo: não entendi a substituição de Abel, ao tirar Bruno e lançar Wellington Silva. Quem sabe alguém dirá, convicto, que o treinador procurava explorar a desenvoltura ofensiva do ingressado. Mas haveria tamanha ingenuidade? Era certo que o Vasco trabalharia nisso, no intervalo. E Bernardo, aberto na esquerda, foi o modo que o treinador Gaúcho encontrou para anular a melhor saída rival. Ficou o Vasco dono do segundo tempo e do empate, que o garantiria na final da Taça Guanabara.

Gum facilitou tudo, ao errar cabeçada e deixar a bola quase que nos pés de Éder Luís. Cruzamento e gol de Bernardo, muito parecido ao que ele próprio marcara em 2011, no Brasileiro, decretando Vasco 2×1. Como é costuma, o Fluminense começou a jogar veloz, depois de sofrer o gol. Muitas chegadas pelas laterais, principalmente com Carlinhos – e o Wellington Silva? – e dois gols: Thiago Neves e Nem. No da virada, dei uma longa corrida pelo anel da Oeste Inferior, enquanto um tricolor derrubava uma lixeira. Ao retornar para o meu lugar, vi o funcionário do estádio pedindo ao inflamado torcedor que recolhesse o lixo, e um PM correndo, cassetete em riste, como se se tratasse de delinquente perigoso.

Em dois cruzamentos, o Vasco fez mais dois gols, ganhou o jogo, a vaga, e, não bastasse, esfregou-nos na cara a péssima defesa que temos – (quase) a mesma que pouco sofrera em 2012. Peguei o trem, livro à mão, fechado. Queria dormir.

 

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