isaacsoyer

Poucos são mais detestáveis que aqueles que vão ao estádio entendendo que a única coisa que seu time pode fazer é ganhar. Não pelo desejo, genuíno e correto, mas pela falta de relação com a própria tragédia.

Ano passado, o Fluminense tinha a vaga na final do Carioca, estava classificado para a segunda fase da Libertadores, e, ao perder para o Boca Juniors, no Engenhão, teve de ouvir vaias. Inclusive Rafael Moura, ao perder um pênalti, teve de suportar a ira daqueles que imaginam que futebol se compra, do mesmo modo que se entra num supermercado e se pede um sabonete ou um biscoito. Vá que a comparação é absurda, e só ela mesmo para dar conta do fenômeno.

Ontem, o time campeão brasileiro, carioca, vindo de uma vitória fora de casa, na Venezuela, apanhou. E apanhou gostando, porque não reagia, não substituía os passes errados e a perda tática pelo coração e o pulmão. E a torcida, que de torcida deve ter pouca coisa, vaiava. Sequer um grito, o dos anos 80 “queremos garra” ou semelhante. Vaia, com a pouca capacidade de quem não sabe enxergar o mundo para além dos primeiros círculos que o cercam, no caso: noventa minutos.

As campanhas de sócio torcedor atraem os cidadãos com benefícios e esquecem de explicá-lo – porque seria o caso de educar – a possibilidade da derrota. Esquecem de avisar que um time que vence três torneios em três anos e tem como quase obsessão – ou obsessão de fato – o torneio continental, precisa de apoio. Bastou ver o Carlinhos.

A cada vaia, retraía-se mais, hesitava, perdia a pouca segurança que tinha, devido ao bom sistema defensivo do Grêmio, e, mais, devido a uma noite em que nada funciona. Bastou ver o Bruno, vaiado ainda no primeiro tempo, quando a coisa seguia somente 0x1.

Justificarão: futebol é paixão e o torcedor é um ser irracional. Que chore, que se agarre ao companheiro de arquibancada, que role pelo chão, que vá para casa mudo, trabalhe no dia seguinte desgostoso e irritado, negue sexo à esposa – ou se for mulher, ao marido, ou se for homossexual, ao parceiro de mesmo sexo. Não coma. Não durma.

Porque os vaiadores, tão logo termina a partida, saem entre risadas, com a cara mais bem lavada de que aqueles noventa minutos não eram mais que um passatempo, um brinquedo que não funcionou.

Deveriam comprar os pacotes pay-per-view e nunca mais pôr um pé no estádio. Muito menos a voz, que nem para falar serve.

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