Depois de um dos mais longos primeiros tempos da história do futebol – quase uma partida inteira – o Vélez foi para o vestiário com o 1×0, gol de Lucas Pratto, enquanto os torcedores do time local, Argentinos Jrs., aguardavam alguma ação do seu treinador, Gabriel Schurrer.

Cheguei cedo, como se deve fazer, e escutei pelo altofalante o anúncio de que a partida fora atrasada em quinze minutos. No decorrer do jogo, antes do primeiro quarto de hora, o locutor voltou, avisando que faltaria luz. Muito organizado isso. O juíz nem parou o jogo, deixou que corresse até o apagão de fato.

Na volta da luz, mais de trinta minutos entre insultos de torcida a torcida, Pratto arranca um chute que surpreende o goleiro, os espectadores, os colegas, o policial e até o gandula. E acabou. O Vélez fez o que tinha e sabe fazer. Passou a bola quando pôde, deixou-a no pé do adversário quando não houve jeito, e seguia no ritmo de quem sabe como se conquista a vitória. Duas chances da equipe de La Paternal, no fim do jogo, assustaram a algum desavisado; não aos que conhecem o trabalho do time de Ricardo Gareca. Ou dos times, porque em cinco anos à frente do clube de Liniers, El Tigre já montou e remontou diversas equipes, sempre no equilíbrio do toque, do bom posicionamento em campo e, como não, dentro da chamada realidade financeira do clube, que cada dia investe menos em compras e mais na base.

Ao contrário do Flamengo, cuja camisa causa um temor nos rivais, o Vélez depende mesmo da sua eficácia, pois ainda que esteja entre o grupo de ganhadores da Libertadores, da Copa Intercontinental e tenha mais títulos nacionais que o Racing e esteja a apenas um campeonato do San Lorenzo – dois dos considerados cinco grandes – o clube capricorniano não goza da preferência dos jornalistas mediáticos, a não ser na hora de elogios redundantes acerca do bom funcionamento do clube, da boa estrutura, da boa administração. Coisas que só aparecem em horas de título ou para avaliar o mal trabalho de um rival.

E eficácia não falta à equipe de Gareca, que entende que golear é dar indícios aos adversários. Embora o discurso do treinador velezano sempre esteja na ordem da humildade, as suas sandálias, devemos reconhecer, são a da inteligência. Se grandes são os outros, eles que se exijam mais, ponham sobre seus ombros um peso que não podem mais suportar, enquanto o Vélez gira a bola, controla, abusa e lambuza as triangulações entre lateral, meia, zagueiro, meia, lateral, atacante, meia, armador, atacante, e assim até que o gol certifique a vitória.

Os torcedores do Argentinos Jrs. se queixavam de Schurrer, mas isso não passava de rotina de quem vai ao estádio com a camisa do seu clube, porque qualquer um sabia que o pobre treinador, diante de Gareca, não pode fazer nada a não ser tomar notas de aprendizagem.

O Vélez entra e campo e seus torcedores se acomodam, aguardam pacientemente a hora de comemorar. Simples.

Há quem reclame a Ricardo a conquista da Libertadores. E ele trabalha, quieto, com seus atletas. Sabem o que devem saber.

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