Quando os três minutos de acréscimo foram indicados no telão de São Januário, comecei a descer os degraus da arquibancada, para chegar o mais rápido possível à saída e não atrasar o caminho até o ponto de ônibus. O pífio público – menos de dois mil pagantes – seria obstáculo algum, mas é bom precaver-se.

Ficávamos quase todos contentes com o 2×0 contra o Nova Iguaçu e seu mais do que chamativo uniforme laranja. Muito laranja, brilhante, suntuoso, beirando o carnavalesco. Dois gols de Wágner e boas atuações de alguns integrantes do time reserva. Os radialistas insistiam em problemas, alguns torcedores também, mas a equipe de Abel Braga foi e é isso: tem pouco a bola, corre poucos riscos e ganha.

No fim do primeiro tempo, três policiais tinham subido a arquibancada, abordado três jovens e os levado. Fumavam maconha, pouco abaixo de um camarote (ocupado) de São Januário.

O dever cumprido, o celular sem bateria – o que me retirava a chance de escutar o pós jogo, na rádio. A insossa caminhada entre o estádio e o ponto de ônibus. De bar em bar, TVs de plasma, sintonizadas no mesmo programa dominical. Apenas dois bares resistiam (contra os demais cinco). Um, porque não tinha TV alguma, e outro, exibia o pré jogo do Botafogo, a estrear contra o Duque de Caxias. No meu trajeto, no ritmo das minhas passadas, um quadro, já começado, chegou ao fim: uma sanfona tocava músicas do massmedia e um rapaz acompanhava, em melodia feita com pequenos sinos ou algo semelhante. Uma lógica de circo, saltimbancos sem propósito, lástima barroca .

A mesma rua, ou melhor, o mesmo pedaço de rua, abrigava ainda duas igrejas evangélicas, sendo uma em desproporção com o local, e uma que julgo ser católica, mas nem posso mesmo afirmar, dadas as transformações de época.

O 474 parou alguns metros adiante, fora do ponto. Corri, lancei-me para dentro e terminei o domingo.

(comemora-se, neste 20 de janeiro, mais um aniversário do Botafoguense Vinícius Mitchell, cronista visual)

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