afiche15 No Natal de 2002, na minha primeira visita a Buenos Aires, ganhei de presente uma pulseira do Vélez Sarsfield. Não sei se um amuleto, uma mandinga ou uma provocação a minha então preferência pelo River Plate. Usei-a até março de 2003, quando, entre distâncias e silêncios, o relacionamento se desfez.

Em 2006, na minha segunda viagem à capital argentina, pisei no José Amalfitani. Via-o sempre, desde a estação de Liniers, ao sair do bairro Once, onde me hospedava em resisdência estudantil – eu não era um estudante, mas aqui isso não tinha importância – e fazia a combinação trem e ônibus para chegar a Mataderos, na casa do meu amigo Fernando, quem me oferecia pratos de comida e mates. Foi por essa referência que consegui, sem mapa e informação, entrar no Vélez 2×2 Banfield, na torcida visitante, por ser o caminho que se me abriu. Um dia que me deixa marca: horas antes, estivera no Diego Armando Maradona, para Argentinos Jrs. 2×0 Gimnasia (Jujuy), algo até então inédito na minha carreira de espectador.

 

Ao Amalfitani, retornei algumas vezes, entre elas, em certo confronto tendo os jujeños e muita chuva pela frente, no dia em que, ao negar dinheiro a um pedinte de porta de bilheteria, ganhei o apelido Tano Amarrete. Acompanhava-me o “Tiburón” Maidana, a quem conheci na pensão de Barracas, apelidada de pocilga por todos os hóspedes. No mesmo ano, na última partida daquela minha incansável turnê em Buenos Aires (27 partidas em 32 dias), despedi-me no Monumental de Núñez, com um River Plate 5×0 Vélez, três gols de Fernando Belluschi.

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Foi praticamente à véspera do centenário velezano, celebrado em 1 de janeiro de 2010, que a minha pulseira questionou a falta de mística no mundo. Quase sete anos depois, a menina que me tinha presenteado aparecia, por mensagem através de rede social. Era mãe, separada, com outros traços e o mesmo sorriso tímido. Fotos, claro, que se fizeram presença no dia 4 de janeiro. Poucos dias depois, outro presente: uma camisa fortinera, com o número 100 às costas.

A aposta era alta: um relacionamento à distância, enquanto eu concluía o mestrado europeu. Para quebrar a sequência de um ano e meio que teríamos pela frente, visitas. E em agosto me torno sócio do Club Atlético Vélez Sarsfield. Frequento o clube, começo a ver os jogos desde a platea sur e sigo mais de perto as notícias. Não demora para que tome conhecimento da união de torcidas entre os fortineros e membros de uma representação do Fluminense. Quadro perfeito, houvesse isso.

Da Itália, primeiro semestre de 2011 e último do mestrado, recebo mensagens de celular, desesperos, ela e seu filho sem poder deixar o estádio enquanto torcedores do San Lorenzo arrebentavam os alambrados do Amalfitani. Ainda me caberá ver o Vélez campeão e, pela TV, com narrador italiano, a derrota na Libertadores, semifinal contra o Peñarol.

 Poucas razões tivemos para comemorar os 102 anos do clube, e um mês depois, viamo-nos mais uma vez separados. Sem distância geográfica, continuando, cada um a seu modo, a frequentar a platea sur. A eliminação contra o Santos veio nas quartas-de-final, em partida no Brasil, um dia depois de o Fluminense ter perdido a vaga, no Rio de Janeiro, em frustrante jogo contra o Boca Juniors. Quisessem chamar aquilo de metonímia, nem eu nem ela negaríamos.

O segundo semestre de 2012 veio sem contatos e com incertezas em campo: o Fluminense se posicionava bem, embora visse um irreal Atlético-MG a sua frente. O Vélez desmontara a equipe, vendendo jogadores como Augusto Fernández, Fernando Ortiz e “Burrito” Martínez. Até o goleiro, Barovero, paritiria para o River. Como na Argentina há dois torneios por ano, o que era praticamente metade de temporada para o Fluminense, era início para o Fortinero. Num 3 de agosto, com um casal de alemães, amigos em comum, estivemos eu, ela e seu filho, juntos, pelo que, até a data deste texto, foi a última vez. Amalfitani, noite chuvosa, e o Vélez impondo 3×0 no Argentinos Jrs.

(Sempre que citei, em alguma crônica, foi incorporando a frase alheia no meu texto. Espécie de plágio. Fico, hoje, com a entrega da referência: João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, em epígrafe e epílogo da minha tese de mestrado. “Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada”. E: “Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.).

Penúltima partida do campeonato, última no Amalfitani, o Vélez, líder, recebe o Unión de Santa Fé, que nas 17 rodadas anteriores, empatou seis e pedeu onze. Em Núñez, o River enfrenta o segundo colocado, Lanús. Uma vitória fortinera e empate ou derrota granate, título fica em Liniers. Chego cedo, duas horas antes, busco meu lugar na platea sur. Não demora para que eu veja o estádio lotado, las dos bandejas, a popular, o setor dos vitalícios, até o codo oeste. Visto camisa do Fluminense, branca. Passavam semanas do título brasileiro, na vitória contra o Palmeiras, que vi ao vivo, pela televisão.

A tensão é tão grande que cabe o lugar comum de que o primeiro tempo passou em cinco minutos. Em dois, do segundo tempo, “Chuky” Ferreira abre o placar, que ele próprio tratará de deixar 2×0, depois de que o goleiro Sosa evitasse o empate do Unión, na sua única chegada realmente perigosa, e a torcida já tivesse gritado o gol do River. O apito final estoura a festa, ainda que alguns torcedores tentem evitá-la: faltam alguns minutos no Monumental e os que têm rádio falam em cinco minutos de acréscimo. Não importa: a razão tem pouca entrada com a massa, e o grito de Dale campeón atrasa até mesmo a saída dos torcedores visitantes, espectadores de uma festa que lhes lança a uma inutilidade sem medidas. Ninguém os insulta, nenhum sinal, nada. O típico cântico oh, Tatengue no existís (poderia ser Bicho, Boca, Cuervo…depende do rival) ganha força na total ausência.

Espero até que se erga a taça – primeira vez que vejo tal cena fora do Brasil –, aplaudo durante a volta olímpica, canto Olele olala Gareca es de Vélez y de Vélez no se va, em apoio ao treinador que mais me ensina futebol, atualmente, e deixo o estádio, Na rua, buzinas e bandeiras. Ninguém me grita Dale Flu. Impossível entrar nos ônibus abarrotados, caminho mais de três quilômetros até um ponto mais sossegado. Sozinho, chego a casa, ligo o computador e leio as frases feitas dos vencedores. Cien años de locura. Ou orgulho de ser tricolor.

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