A cada dois fim de semana, visito o Enrique Sexto, estádio do Club Atlético General Lamadrid, para as partidas da Primera C, quarta divisão do futebol argentino. O ambiente é mais íntimo que aquele da temporada anterior, quando a equipe de Villa Devoto disputou a Primera B, tendo lutado até o fim contra todos os maiores recursos dos rivais. Não foi possível a permanência, a chamada realidade deu as caras e o rebaixamento causou um primeiro desânimo, logo substituído pelo orgulho da entrega, da disputa e, como dizem cá, de nunca haver baixado os braços.

“Pato” Franzoni, técnico vitorioso numa temporada e que perdeu abraçado à equipe, na outra, sem a abandonar, acabou saindo no final da temporada, levando alguns jogadores com ele, para Zárate. Outros atletas deixaram o clube, propostas melhores, oportunidades na carreira. Entre os poucos torcedores que conheço, o receio de perder Matías Giménez. Para mim, algo certo, porque o futebol do meiocampista de cabelos rastafari é digno de divisões maiores, tanto pela sua técnica, sua visão de jogo, como pela sua garra em campo.

Faltei ao primeiro jogo da Primera C 2012/13, contra Talleres (RE). Uma pena, porque fora justo contra esta equipe que escrevi minha primeira crônica sobre o Lamadrid. Uma partida vitoriosa, na temporada 2010/11, em que escutei pela rádio, nos meus tempos de Bergamo, Itália. Tempos em que aprendi a metaforizar o futebol através das grandes construções do narrador Sebastián Crosta. Por notícias, soube que Giménez seguia no time.

Como qualquer indivíduo mais atento pode supor, a quarta divisão não possuem heróis midiáticos ou personagens feitos para imortalidade. As dimensões humanas relevam-se muito mais, e cada dividida é corte na carne, desejo sanguíneo de vitória, épica de uma tragédia que dispensa holofotes. Não há danças ou comemorações elaboradas para um gol, mas abraço com o companheiro, gritos de desafogo. Não há mensagens para as câmeras, porque o mundo se encerra ali, entre as quatro linhas e as tribunas em volta.

O nível técnico, por razões mais óbvias que a obviedade, é baixo, apesar de alguns atletas que superam a média, como é o caso do citado Matías Giménez. Toques precisos, condução de bola em tempo correto, escolhas que dificilmente são equivocadas. Se alguém diz que Lamadrid é Matías, não estaria errado. Parece que entre o clube e o atleta não há distâncias. O jogador, para qualquer hincha carcelero, se mostra a personificação do clube, uma espécie de mítica sem mito.

Não houve, em todas as vezes que vi Lamadrid em campo, uma má atuação de Matías Giménez. Quando as coisas não saíam da melhor maneira, por uma bola que escapara, uma marcação adversária mais eficiente, ele compensou com carrinhos, corridas, huevos. Se lhe dessem a opção de morrer com a faixa branca em diagonal, sobre a camisa azul, penso que ele não recusaria.

Não sabemos até quando teremos o privilégio de vê-lo com a camisa da equipe de Villa Devoto. Mas isso pouco importa. Que Matías Giménez não seja eterno, justamente por ser histórico.

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