HuracanLunacalle

Sabem que o cronista segue os jogos do Argentinos Jrs., no Diego Armando Maradona. Também sabem que a economia se nos impõe escolhas não afetivas. Cabia, para o sábado 3 de novembro, aniversário da Senhorita Menezes, a quem levei, em 2007, ao Maracanã, optar entre o tradicional ou uma visita ao Tomás A. Ducó, para Huracán x Independiente Rivadavia. Um jogo de segunda divisão, 11 da manhã. Atraia, como sempre atrai, o estádio, um dos mais belos da cidade, marca do meu time 500, também no ano fabuloso ano de 2007, e, algo vale o registro, cenário em O segredo dos seus olhos, de Campanella.

O Huracán, que se diz sexto grande – dizem seus torcedores, porque o Huracán não pode dizer nada, evidente –, amarga não apenas seu segundo ano consecutivo no Nacional B, mas debate-se na zona de rebaixamento para a terceira divisão. O adversário do desejum – não há quem explique uma partida às 11, menos com o calor e o sol – briga nas duas pontas. Prevejo uma derrota e um caos em Parque Patrícios. Em épocas de sensacionalismos, é lá que o cronista deve estar, atento, arriscando-se.

Chego com antecedência, evitar tumultos. Vazio. Um carro me ultrapassa e o torcedor me pergunta se haverá mesmo jogo. Confirmo e indico o relógio – o celular. Compro meu ingresso. Não podemos entrar, os portões fechados e uns poucos policiais que nos pedem paciência. Detenho-me nas pinturas nos muros enfrente ao estádio. Valeria para uma exposição, pois desde a chegada, feita pela rua Luna, atravessa-se um corredor de imagens e frases, poéticas, jocosas, provocativas, irônicas, nostálgicas. A que está diante da porta 8 versa: “Sopla el grande/ sopla el chico/ sopla el pobre/ y sopla el bacán// pero cierren bien el pico/ cuando sopla este Huracán”.

Assim que entro, compro o benvindo choripan e um refrigerante, única bebida possível na maioria dos estádios. Erro ao não proteger-me do sol e fico lá, solitário em dois cotovelos da arquibancada. A torcida chega bem tarde. Os barras bravas, por exemplo, entram quando o primeiro tempo já dizia a superioridade do time da casa e o marcador em 0 para todos. Piriz Alves, perigosíssimo atacante da visita, tocara a bola no meio campo, duas vezes. Isso não motivava tanto uma afición que vê, rodada a todada, que seu clube só não corre para a terceira divisão porque o torneio é longo, em ritmo de marcha. Isso aparece logo no início da segunda etapa, quando o cântico ameaça: “Jugadores, no se lo decimos más/ se nos mandan al descenso/ los mandamos al hospital”. E nem basta muito comentário ou imaginação para registrar o que vem à tona depois do gol de cabeça justamente de Piriz Alves. O Huracán desmonta e a partir daí, nenhuma reação, nenhum movimento que permita pensar ou iludir-se com o empate. Parecem ter a cabeça mais no hospital, ou como escapar dele, que no campo de jogo.

Antes mesmo do gol do Independiente, os bombeiros, em aparente ordem da polícia, regaram os torcedores. Para não perder a festa, muitos deixaram seus lugares na arquibancada e se aproximaram do alambrado, onde a água caía mais forte.

O juiz apitou o fim do encontro e uma pequena parte, provavelmente exclusivos barra bravas, tentaram invadir o gramado. Algum, em desespero mais genuíno, atirou seus dois tênis ao campo de jogo. Não atingiu ninguém. Cientes que a invasão era utópica, procuraram a grade que separa a arquibancada das cadeiras e começaram a forçar a derrubada. Um orgulhoso cadeado resistia, enquanto os bombeiros, agora com outros fins, voltavam com a mangueira. Apesar da pressão da água, somente o susto inicial de que aquilo fosse mais violento afastou os pretensos invasores. A polícia olhava. Um deles, como de praxe, filmava. Talvez seja para a realização de algum documentário. Os torcedores ditos normais assistiam a cena conduzida por um diretor anônimo. Mantendo a ordem estabelecida, mesmo quem quisesse deixar o estádio não poderia, pela famosa retenção da parcialidade local. Ficavam os pacíficos temerosos de algo pior e a polícia olhando para a cara deles. Os demais, os poucos, seguiam chutando, empurrando, lançando-se contra a grade. Quando consideraram que a festa poderia ser mais divertida, liberaram a saída de todos e, mais previsível que a morte, a mistura de violentos e temerosos, ao redor do estádio, provocava um semipânico. Alguns trataram de deixar rapidamente o local, sem tempo para rever as pinturas da rua Luna. Outros se confrontaram com a polícia, puras pedras contra escudos.

Pouco antes de chegar à estação de metrô, passei em frente a uma loja, não me recorde de quê, onde uma senhora olhava para os torcedores e repetia, “me duele el alma”.

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