aaajFernando Echenique apitou o fim do 3×3 entre Argentinos Jrs. e Unión de Santa Fé. Embora o ponto fora de casa não ajudasse muito na luta contra o rebaixamento, os torcedores tatengues deixavam o estádio com cânticos de alegria. Os do Bicho de la Paternal os observavam, sem muita reação, talvez ainda atônitos pelo gol de empate sofrido já nos acréscimos, depois de ver uma liderança de 3×1 no marcador. Um ou outro insulto se podia ouvir, ainda que a maioria buscasse mesmo alguma voz capaz de explicar o fenômeno.

Não sou de ter imensos diálogos em estádios, e, não sendo torcedor do Argentinos Jrs., muito menos me cabia procurar ser um dos supostos explicadores do amargo empate. Ouvia, dos que estavam próximo a mim, as deliberações mais comuns: erro do técnico nas substituições, desatenção dos atletas, influência sobrenatural, má qualidade do time. Não me surpreendia que nenhuma das vozes entendida deixasse de lado aquele que poderia ser tomado como um dos pontos mais determinantes para este inesperado empate: a torcida.

O Unión começara muito bem a partida, e não fossem as defesas do goleiro Ojeda, o Bicho não teria como se recuperar, ainda no primeiro tempo, e desfilar suas jogadas pela esquerda, com os avanços de Barrera. Dele, saiu o cruzamento para o gol de Figueroa, que, ainda no primeiro tempo, receberia outro bom passe e deixaria a coisa em cômodos 2×0. Cômodos, não pelo 2×0, que segundo os especialistas é um resultado mais perigoso que o 1×0, numa clara supremacia do psicologismo em detrimento da matemática. A comidade surgia pelo comportamental corporal dos jogadores do Unión. Começar bem, não marcar um gol, sofrer dois e saber-se na zona de rebaixamento, abate qualquer equipe. Com inteligência, o Argentinos rodava a bola, na sua tradicional escola de bons passadores: Maradona, Riquelme, Redondo, Cambiasso…

O torcedor, também segundo os especialistas, é um ser irracional. Isso é grave; ou deveria sê-lo. Bastou uma sequência mais envolvente de toques e os gritos de “Olé” cresceram. E mesmo que algum atleta afirme que a torcida não é preponderante para sua atuação, cabe lembrar que o humano e a sua sensibilidade auditiva altera o estado emocional – para alguns mais, outros menos, porém em um time de onze, já se pode pensar em boa média de suscetibilidade. “Olé, olé!” e mais passe, menos verticalidade, mais soberbia.

O primeiro gol do Unión, em pênalti bem cobrado aos seis minutos do segundo tempo, poderia ter sido alerta, não fosse o terceiro gol, outra vez Figueroa, logo aos nove minutos. Os pobres jogadores tatengues se apagaram uma vez mais. La Paternal era festa, já sem os gritos de “Olé”, que pareciam, entretanto, implícitos em qualquer ação, em qualquer jogada.

Aos 37 minutos, em jogada lenta e aparentemente desinteressada, o Unión marcou o segundo. Do relaxamento do “Olé” ao medo e à paralisia. A equipe visitante começa uma série de ataques perigosos, até conseguir, num destes populares chuveirinhos, o empate. Falha da defesa, esperteza do atacante ou atraso do goleiro, que quase toca a bola antes da cabeçada do rival. Quase, apenas quase.

Os últimos torcedores tatengues, descendo as escadas da arquibancada visitante, não se esqueceram de cantar aos seus colegas do Argentinos: “Olé, olé!”. Na conferência de impressa, Leonardo Astrada, técnico do Bicho, não deve ter mencionado a torcida como fator prejudicial ao rendimento da equipe na tarde de sábado. Caberia a algum repórter, no entanto, perguntar-lhe por que não a substituiu, no fim do primeiro tempo.

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