Visitar o estádio Diego Armando Maradona, casa do Argentinos Jrs., oferece a peculiaridade, no setor Platea Alta, de sentar-se ao lado de jornalistas que cobrem a partida. A primeira vez que vira um rapaz um pouco desfigurado agarrar um celular – ou semelhante – e ler as escalações, prontamente escrevi ao meu amigo poeta, comunicando a factual falência da nossa rádio, a Tupinambá. No decorrer do torneio, entendi que aquele lado esquerdo, perto de uma câmara de televisão, fica mesmo para essa gente que não merece lugar nem no campo nem em cabines. Não merece ou não recebe, mesmo que mereça.

No último domingo, durante o encontro que punha frente a frente o time da casa, com o retorno do sempre ídolo Diego Placente, e o Racing, grande investidor que trouxe o campeão do mundo Camoranesi e o cultivado atacante José Sand, que andava, penso, pelo México, um destes radialistas preteridos agarrou seu microfone, buscou a lista de numeração dos jogadores e não titubeou: detalhou todo um diálogo entre o treinador Zubeldía e o atleta Centurión, à beira do gramado. Segundo ele, Zubeldía perguntava se estava tudo bem com o jogador e, ainda, pedia que ele não abrisse tanto e jogasse mais fechado, pelo meio. Surpreendeu-me que este repórter de campo, de pé do lado esquerdo da Platea Alta, ou seja, do lado oposto ao banco do Racing, possa ter sido tão preciso. Certo que alguns gestos de Zubeldía indicavam uma ou outra suposição, mas sequer leitura labial era possível, pois apenas víamos os longos cabelos castanhos do treinador.

Como era já o segundo tempo, não me preocupei tanto com a farsa, mas, tão logo terminada a partida, indiguei-me se, na altura da grave lesão do peruano Fernández, apelidado Zlatan, o que poderia ter relatado o eficiente repórte de campo. Não muito antes do fatídico lance, Fernández se enroscara nas pernas de Fernando Ortiz, e a discussão, que incluiria o goleiro Saja e o árbitro da partida, arrastar-se-ia até a forçada substituição do atacante peruano. Embora a lesão não tenha ocorrido em jogada desleal, sequer dividida, imagino que o atuante repórter tenha gritado, do alto da tribuna, qualquer coisa que incriminasse Ortiz e provocasse revolta ou algum apelo à comoção.

Do ônibus, enquanto via um adolescente com o casaco do Argentinos pedia cigarro a uma jovem com blusa do Racing, tive vontade de perguntar ao senhor ao meu lado se ele, por acaso, havia escutado o jogo pelo rádio. Mas já isso era demais.

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