Leonardo Arantes, 7 de março de 1983, Volta Redonda, Rio de Janeiro, Brasil, chegou a Alemanha para uma segunda temporada como estudante, no segundo semestre de 2008. Eu já me encontrava desde março do mesmo, e, por ele, fui abordado, penso que em outubro, no intervalo de um curso de alemão que frequentávamos juntos. Sabiamo-nos brasileiros, pois cada aluno teve de apresentar-se, com a fluência correspondente a quem almeja o título do KDS (Kleines Deutsches Sprachdiplom), penúltimo passo a uma pretensa glória.

Quis saber, enquanto nos dirigiamos à cafeteria, a qual carreira eu me dedicava, há quanto tempo estava na Alemanha, meu grau de instrução, e todas as demais perguntas de praxe. A nós, juntaram-se outros três brasileiros, o que nos deva a segunda colocação no ranking do curso – a Polônia, com seis representantes, sagrou-se campeã.

Foram meses difíceis, por conta da neve, do frio, e da escuridão: sair de uma aula, por exemplo, às 16 horas, e ver-se numa noite. Também o autoexigente ritmo que me impus, neste semestre, em que cursei algo como 14 matérias, em seis idiomas diferentes, havendo, por fim, falhado em duas delas (repeti em Sueco I e não me apresentei para a prova de Russo I, com medo do vexame). Não sabemos como, no meio disso tudo, encontramos tempo para que Leonardo me explicasse os postulados kantianos, em conversas que mantínhamos a um péssimo vinho Bon Soir, o mais barato do mercado, mais barato inclusive que os de caixa, e a brava pizza Ja!, também a mais barata. Embora a versão com salami fosse mais digerível, descobri que um cidadão como Leonardo usa mesmo os aparatos da economia, comprando a de muzzarela e adicionando fatias de salami compradas avulso.

Ainda antes de que passáramos, com Eric, estudante de geografia carioca e flamenguista, e a irmã de Leonardo, o Natal deste ano, Herr Arantes, como cabia dizer no ambiente universitário alemão, conviveu com a sua maior frustração desportiva, ao tomar conhecimento do rebaixamento cruzmaltino. Uma história que cruzava com outras tantas, não apenas a minha, evidente, ainque que eu não tenha tomado conhecimento das outras.

Cabia, a um tricolor dos anos 90, o que eu era, sorrir e rir a ida do Vasco para a segunda divisão. Porém, se já havia o poema “Maracanã, 11,04,2007”, do meu amigo poeta, num assombroso Vasco x Botafogo em que dividimos mais de cento e setenta emoções, havia, ainda, um Leonardo viajante, voltando de Würzburg, onde morava sua irmã, por estes tempos, enquanto o Campeonato Brasileiro definia sua última rodada.

É o mesmo amigo poeta que me narra, no mesmo ano de 2008, a decisão de pênaltis da final da Libertadores, em que o Fluminense cai diante da LDU, no Maracanã. Quando ele me informa o título equatoriano, a internet cai, e o skype, pela graça divina ou diabólica, deixa de funcionar. Passava das seis da manhã, na Alemanha, e caminhar pelas ruas que desconheciam meu sofrimento pode ter sido a melhor salvação circunstancial.

Nunca saberei em que momento Leonardo me escreveu a primeira mensagem de celular, perguntando do andamento dos jogos. Imagino que era ainda primeiro tempo. Tampouco, saberei por qual cidade passava o trem, no momento em que esta mensagem me chega. Fiquei surpreso, pois dava como certo que ele estaria grudado no computador da irmã, seguindo a partida pela internet. Jamais me explicou, e muito menos tive coragem de perguntar, por que ele decidiu voltar da visita justamente no horário da partida.

À medida que saíam os gols, informava-lhe, e sequer tive a sorte de ver cortado o sinal do celular. Não fui ao seu encontro, na estação de trem, naquele final de domingo, e minha última mensagem tentava trazer uma frieza jornalística: “rebaixados: Figueirense, Vasco, Portuguesa, Ipatinga”. Sem resposta.

Anúncios