Ao fim do jogo Colón x Godoy Cruz Antonio Tomba, faltará uma rodada para o fim do campeonato argentino, ou daquilo que poderia ser a metade dele, fosse a Argentina realmente tão europeia como se pensa parte de Buenos Aires. O Clausura e o Apertura ficam neste vai e vem de jogos – popular turno e returno – para consagrar dois campeões por ano. Que haja justiça: isso não é exclusividade argentina.

O Tigre entrará em campo podendo ser campeão e, ao mesmo tempo, entrar na repescagem para evitar o rebaixamento. A matemática permite isso, e o regulamento, também. Perturba qualquer lógica ocidental, e é mesmo necessário consultar ao amigo Lorenzo Cammi, italiano que está às voltas com Lógica Formal, na Universität Leipzig, Alemanha. Não sei se ele terá a atenção e erudição precisas para alertar-me do propósito de Kaspar Hauser, no que se refere a uma cena do filme de Werner Herzog.

Cativa-me: os jogadores do Tigre dando a volta olímpica, a torcida em devaneio – jogam em casa – e a comissão técnica pensando no responsável descanso para a próxima partida, pela repescagem. A manchete do jornal talvez seja “Os campeões se preparam para lutar contra o rebaixamento”, e nisso não há hipérboles ou deslocamentos temporais, em que “campeão” fica como epíteto a um clube outrora vencedor. Ainda: se perdem a repescagem, serão, imagino, os primeiros campeões nacionais a disputar a segunda divisao, na temporada sucessiva. No caso de vitória, seriam bicampeões, sendo um ano da séria A, outro da B, nesta ordem.

Não sei se Herzog gostaria de filmar isso, e poderíamos deixar a tarefa para Campanella, com roteiro de Sacheri – são os de El secreto de sus ojos, e a cena magnífica e magnânime filmada no Tomás A. Ducó, estádio do Huracán. Tampouco, sei se estes dois estariam interessados de aventurar-se pelo gênero documentário, mesmo que pudéssemos valer-nos de um pomposo sintagma, “documentário fantástico”.

No fim das contas, pode ser que a conta feche, e o Tigre não vença seu jogo, ou vença, e os adversários contra o rebaixamento percam ou empatem, e a história fique salva apenas como possibilidade em potencial. Isso não mudaria o regulamento, imagino, mas livraria a condenação dos responsáveis por tais regras ou dos professores de Lógica Formal.

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