A Eurocopa está prestes a começar e já exigem do cronista algum posicionamento. Não cairei na bobeira de simular cartas ou correios eletrônicos de ávidos leitores. Ninguém me escreveu nada, e quem exige sou eu mesmo, ou o texto, ou um alter ego disfarçado, ou até uma entidade metafísica – grande oxímoro.

Por condição de nascimento, devo ressaltar que a América do Sul superou a Europa. Quero dizer, com isso, que nosso torneio intracontinental é mais antigo que o deles, iniciado em 1960. Ainda: com exceção de uma batalha aqui, outra ali, um roubo de terras, uma safadeza territorial, nossa (nós = Brasil, Argentina e Uruguai) única grande vergonha é a Guerra do Paraguai, enquanto os europeus possuem uma coleção maior, mesmo contando a partir do fim dos ‘800, quando vemos as nações. De repente – isso não passa de uma tese tola – uma Eurocopa iniciada no início do século XX evitaria uma série de conflitos.

Para mim, o torneio tem no início em 1992, quando a supreendente Dinamarca superou a Alemanha, na final, e levou o título. Foi um 2×0 arrebatador, e nem era a tal Dinamáquina, da qual ouvira falar, por conta de, se não falho, 1986. Não me lembro dos gols, e antes de recorrer a youtube, fico com aquela indefensável cabeçada de Klinsmann, defendida por Schmeichel (não foi a primeira cabeçada indefensável a ser defendida, na história do futebol). Não se sei minhas afinidades eletivas, desde 1986 com a Alemanha, me fizeram nunca ter sido, nas peladas da Praia do Flamengo, onde fui goleiro de destaque, o citado arqueiro dinamarquês. Até um humilde Thorstvedt, da Noruega 1994, teve a honra de ser gritado durante as minhas defesas (duas observações da maior importância: Siboldi fora o goleiro mais gritado, a ponto de me ser concebido este apelido; o norueguês tinha mesmo a vocação, se penso que Tor, em língua alemã, significa gol, no futebol).

Mas ninguém ousará discutir que o maior lance da Euro 92 foi aquele golaço de falta de Thomas Hässler, aos 90 minutos de jogo, contra a pós Uniao Soviética e pré Rússia (CEI, diziam aos rapazes, em língua portuguesa). Não bastava ser um golaço, mas é que vi aquele lance justo enquanto Hässler, o camisa 8 do meu time de botão, atuava, num dos inúmeros torneios disputados na casa da Federação Jefte de Futebol de Botão (há quem ria das ironias: Jefte, hoje, é professor de História, leitor de Brecht, e talvez se negue a afirmar que, na época do mencionado gol, ouvia Faith no More e cortava o cabelo como Mike Paton).

Quatro anos mais tarde, abandonei uma pelada, na mesma Praia do Flamengo – passara de goleiro a zagueiro – para não perder a final da Euro, entre Alemanha (antiga Ocidental: desde a Copa de 90, uma só) e República Tcheca (aquilo que, na Copa de 90, chamavam Tchecoslováquia). Um sofoco danado, parecia que perderíamos o título outra vez, até que Oliver Bierhoff nos salvou, na prorrogação (gol de ouro, aquilo?).

Por tantas razões, 2000 e 2004 passaram ao largo dos meus maiores desejos, e, se bem devo ter visto algumas partidas, minhas memórias são lembranças forçadas, sem cargas emotivas. A surpresa de ter visto Portugal cair diante da Grécia não se deu sequer ao vivo, se não me engano.

A edição de 2008 não me permitia mais uma indiferença. Poucos meses antes do seu início, chegava eu ao continente, para iniciar o que seriam quase quatro anos de estudos. Sem TV em casa (uma moradia de estudantes, na cidade alemã de Tübingen), sentava-me no Litle Italy. Francesco, o dono do bar, italiano interista (somente meses depois, aprendi que italianos, ali, geralmente tinham nascido na Alemanha mesmo), acompanhou meu sofrimento naquele Turquia x Suiça, quando viramos – sim, eu já passara de alemão a turco, por incomprovadas genealogias – e fomos rumo a um campeonato de encher a nação de orgulho: perderíamos contra a Alemanha, na semifinal, após haver empatado em 2×2 no minuto 86, e sofrer o terceiro no minuto 90. O curioso desta partida é que, para evitar um oba-oba de bar, busquei refúgio no centro de esportes da universidade. Só havia, claro, gente obrigada a trabalhar: um alemão e um turco, justamente, instrutores da musculação. Entre um gol e outro, a TV perdeu o sinal. Aquilo tinha tanto de absurdo, que nem valeria como mentira, se eu contasse em detalhes.

Havia beleza e tensão ao seguir os jogos perto de gente tao envolvida e misturada. Numa partida da Polônia contra a Áustria, um exaltado polonês (ou filho de?) chutou uma cadeira, no Litle Italy, contra um jovem alemão, que teria dito qualquer coisa que nem ouvi muito menos teria entendido. Ou as belas croatas que pintavam as bochechas e saiam dali para comemorar vitória ou derrota. Os bombos e cânticos turcos, que ditaram ritmo a cada conquista. Eu, solitário, corria para comprar um Döner (sanduíche turco, vendido em qualquer esquina alemã) e celebrar com o vendedor, que me dizia merhaba e nasilsiz (será assim?), ao me ver com a camiseta turca (com um „Fernando 3“ às costas). Uma russa que abandonara uma festa de aniversário – da minha professora de francês – para ver os minutos finais da vitória contra a poderosíssima Holanda.

A final, não vi. Voltava de um torneio de rugby, disputado em Nürnberg, contente pelo meu primeiro try convertido (a jogada, conta o Karlsruhe: Simon pega a bola e chuta, forte. Corro, um marcador ao lado, e, perto da bola, dou um chute para que ela siga em direção ao in goal rival. Ele só pode me agarrar quando eu pegar a bola: regra. Chuto uma segunda vez, e finalmente a agarro, velocidade fulminante. Perto da linha, ele me agarra, tackle, e caio como aquelas árvores de desenho animado. Penso em Juan, treinador argentino no meus tempos de rugby em Niterói, „você, depois que cai, tem mais um movimento, o último, pode passar a bola“. Não era o caso, nenhum companheiro meu tinha conseguido acompanhar-me em corrida. Estico o braço e apoio a bola dentro do in goal. O juiz apita, assinala o try). Nossa equipe ficaria em décimo tal, e o Karlsruhe, que venceria a partida por 4 tries a 1, comemoraria o terceiro lugar. Importa que, não querendo ser partícipe de uma festa alemã, fui para casa, assim que a van nos deixou em Tübingen. Pela internet – e pelo silêncio – soube que a Espanha vencera.

Para 2012, planejei ver alguns jogos no estádio, mas a minha compra de quatro ingressos não foi bem sucedida – segundo o email da UEFA, não fui sorteado, depois que o número de solicitacoes fora maior que o de oferta. Ficarei cá, na Argentina, esperando que alguma TV apareça (se me mudo semana que vem, terei uma TV em casa, e bastará convencer os futuros coinquilinos, chilenos), uma bandeira da Turquia às costas (eles não se classificaram), uma sereia de Varsóvia na perna e um livro em alemão a traduzir para o português (brasileiro).

(Marina Ernst, nascida Pereira de Almeida, estará ocupada com estudos em Heidelberg. Certamente, torcerá pela Alemanha. Mas não penso que sofra. Paulina Dżoń, nascida no sul da Polônia, estará em Berlin, trabalhando para o Polnisches Institut, e ficará contente com qualquer resultado. Francesco colocará um telão e esperará os clientes. Onde estará Alexandra Bardy? E o vendedor de Döner terá clientes, não importa o vencedor).

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