Nunca se sabe se é o cronista que faz a crônica ou a crônica que busca o cronista. Muito antes de eu saber que estava condenado – e uso o termo no seu sentido jurídico, não no religioso – a ser um cronista, fui colocado diante da crônica. Era ainda a minha primeira temporada como espectador, após aquela tímida estreia em 1990, e o Fluminense alcançava uma final. Nada tão absurdo, não tivesse a condenação chegado tão cedo.

O Maracanã assistira, na final do Campeonato Brasileiro daquele ano, a um episódio indigno. Não a derrota humilhante do Botafogo para o Flamengo, na primeira partida, mas a queda de parte da grade da arquibancada, em que torcedores rubro-negros foram vítimas fatais. Isso levou à interdição do estádio. Como naquela época não havia Engenhão nem Volta Redonda, e nem bem sei o motivo de não nos terem colocado em São Januário, o Fluminense foi disputar a primeira partida da final da Copa do Brasil nas Laranjeiras, cuja capacidade – risoriamente oficial – era de oito mil pessoas. Pessoas?

Comprar o ingresso já fora uma tarefa interessante, e, com um amigo da minha idade – 13 anos – garantia a minha primeira final in loco. Possuo poucas memórias daquela manhã e daquela tarde, mas prevejo que não vivi muita coisa além daquela partida. A data do jogo – 10 de dezembro – sei por consulta, não por memória. Dois gols do jogo – o do empate colorado, feito pelo Caíco, e o da vitória tricolor, pelo Ézio – são mais nítidos em minha mente que qualquer imagem em vídeo. A entrada foi triunfante. E não falo da equipe.

Se hoje em dia sou precavido com o horário de chegada a um estádio, naquela época a ansiedade cumpria seu papel. Para um Fluminense x Goytacaz, pelo Estadual do mesmo ano, havia adquirido o ingresso 000001, guardado até hoje com orgulho e vergonha, já que a partida foi disputada numa quarta à noite, sob chuva, sem nenhum valor especial para a tabela, e ainda assim eu cheguei às Laranjeiras duas horas antes do início. Uma final de Copa do Brasil me antecipou minutos a mais a estas duas horas.

A rua que passa ao lado do estádio, que, coisas nossas, é a rua principal daquele trecho do bairro, estava impraticável para os carros e ônibus. Por sorte, morava a mais ou menos 10 minutos a pé. Havia algo nada semelhante a uma fila, que seguia todo o muro no clube e parecia desembocar no magro portão de entrada. Para quem nunca foi às Laranjeiras, basta imaginar que o portão de entrada é – não digo faz as vezes de – o portão de entrada de um dos estacionamentos.

De início, resolvi posicionar-me com meu amigo nesta aparente fila. Não andava. Sequer um passo. Olhávamos o relógio e o desespero por perder o jogo, com o ingresso na mão, aumentava. E não era um risco atípico nos estádios brasileiros, sabíamos disso pelas notícias. A vantagem da condenação, ao contrário do que se possa conjeturar, é que o condenado nasce com as qualidades necessárias para pagar a pena de ser um cronista. Decidi entrar sim ou sim e chamei meu amigo. Hesitante, ele acabou ficando para trás.

Já estava na parte de dentro, um pouco após a linha que divide a calçada do portão, exatamente ali, no trilho. Empurra-empurra, grito, gente chorando, xingando. Meu corpo era um obstáculo para mim, porque lutava com gente maior e mais forte. Ademais, a idade dava aos meus adversários uma experiência que eu não possuía. De praxe, um funcionário ficava ali, recolhendo as entradas, destacando-as, e devolvendo-as ao espectador, que a deveria guardar caso a partida fosse cancelada, suspendida, ou qualquer coisa desse gênero. Dessa vez, um senhor de bigode recolhia as entradas e as amassava em uma das mãos. Ele estava a poucos metros de mim, e, enquanto eu lutava contra aquela gente cada vez mais imensa, olhava fixamente para ele, como um nadador de travessia, que só pode ter como ponto fixo a bóia, nada mais.

A polícia tentava, de seu modo conhecido, evitar o pior. À parede, os policiais se protegiam do esmagamento próprio, antes mesmo do nosso pisoteamento, e com isso recebi algumas pancadas de cacetete na barriga. Se aquele policial não fosse passível de envelhecer, eu o reconheceria ainda hoje pelas ruas do Rio de Janeiro ou de onde quer que fosse.

Quando encontrei um lugar desde o qual eu pudesser ver o jogo, o juíz apitou o início da partida. Não imagino que a entrada da equipe em campo tenha sido mais triunfante que a minha.

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