Desde o seu quartinho, no térreo do prédio 63, da Rua Machado de Assis, no Rio de Janeiro, Severino gritava „Boca! Boca!“, ao que eu respondia, timidamente, „Mengo! Mengo!“. Isso era, imagino, 1991, e o Flamengo entrava em La Bombonera para defender o 2×1 conquistado no Maracanã, gol de Gaúcho. Se acerto o ano, é o mesmo de um acachapante Flamengo 4×1 Fluminense, final de Taça Guanabara ou Taça Rio ou Campeonato Carioca. Eu, no rádio, confiante que o agora falecido Ézio me salvasse. Pois sim, já tricolor, apegava-me ao Flamengo justo porque o Boca me era a equipe mais detestável, ao lado do Milan.

Severino era botafoguense, e nunca soube se torcia por algum time de sua terra natal, a Paraíba. Nunca soube, devo dizer, se ele viera mesmo da Paraíba ou se os modos tortos do carioca de se dirigir a nordestinos me fizeram pensar nisso, eu que, entre final de infância e início de adolescência, ouvia apenas suas histórias sobre o Botafogo, quando passava pela portaria.

O Flamengo caiu, naquela noite, por 3×0. Ninguém resistia a La Bombonera. Muito menos as equipes brasileiras. Jogar lá era derrota certa, era jogar como pequeno, recuado, retrancado, rezando que a bola não entre. La Bombonera, sabem o que é este estádio, é a superação do mito, um desperdício ao símbolo. 3×0, sem dó. E Severino a gritar, „Boca!“.

Libertadores 2012, Fluminense cai logo no grupo com Boca Juniors, Arsenal e os venezuelanos do Zamora. Não é boa coisa. Os Xeneizes estão voltando à competição, põem muitas fichas nisso. O Arsenal, bem, é meu único jogo do Fluminense na Libertadores, pouco antes que eu me despedisse do Brasil e não voltasse mais como morador. 6×0, aquele golaço do Dodô, o meu inverossímil encontro com um torcedor que compartira comigo os „23 de La Plata“, em 2006, quando perdemos para o Gimnasia local, no Estádio Único. Ele me reconhecera pela voz, pela forma que eu insultava os jogadores do Arsenal. Ao escutar aquilo, não teve dúvida. Nunca soube os motivos que o fizeram voltar parar no Rio de Janeiro, dois anos depois, ou se era uma visita de coincidência.

Cá fico, em Buenos Aires, na angústia por um ingresso. O sitio tricolor informa o arranque das vendas, fala em 4.000 entradas. Por aqui, nada. Escrevo para a torcida do Vélez Sarsfield, irmã da Young Flu. Sem resposta. Minha mãe, por telefone, recebe a notícia que os ingressos restantes seriam vendidos diretamente no estádio da partida. Lá vou eu, na véspera. Conheço bem La Bombonera, três visitas, em três setores diferentes – meu Deus e meu Diabo, três vitórias do Boca! – e a tranquilidade que, do Rio, não vêm quatro mil torcedores. Convidei até dois colegas, um coinquilino, colombiano, e um argentino.

Esgotado. Como? Liguei para o clube. Esgotado. A informação que nos passaram. Esgotado.

Escrevo para o colombiano e pergunto se ele quer outra entrada. O valor o afasta. A mim, não. Encaro. Encaro. Platea do Boca, isso. No meio deles mesmo, o que importa, não me reconhecerão. Mas e os cânticos? E se fazem o gol? E se sofrem outro, outros, outros muitos, goleada contrária?

Cheguei cedo, preparado. Um livro de José Hernández, contos. O celular como rádio, o que não chega a ser um hábito meu, mas poderia ser uma defesa. Antes de entrar ao estádio, me sento em uma cafeteria, comer alguma coisa, respirar. De todos os lados, amarelo e azul, camisas e bandeiras, ânimo. Mas se já não gosto de festas, a dos outros que sejam menos.

Coisa engraçada, o quarto setor em quatro jogos, ando mesmo um turista de La Bombonera. Dessa vez, o assento marcado no ingresso correspondia ao da platea. E, em estádios sulamericanos, que enchem muito antes do início do jogo, tive a sorte de só ser rodeado a poucos minutos do apito inicial. Os fogos de artifício, na entrada do Boca, foi alento, porque fogos de artifício fazem o mesmo barulho em toda parte. Somente quando eles foram deixando de ser lançados, ogesto bateu na minha cara. „Siga, siga, siga el baile, al compás de tamboril, que esta noche los corremos a los putos de Brasil“.

Sai a bola, observo o relógio e peço, a quem queira escutar-me, termina logo isso que eu quero sair daqui.

Dois minutos, gol nosso. Vou embora, vou falar com o policial, explicar minha situação, ainda tem lugar vazio lá na torcida do Fluminense, ele me deixa passar, eu paguei ingresso mais caro, não vai ter problema algum. Porém, se o policial me delatar, pronto, estou perdido. Mas que nada, os funcionários do clube costumam ser gente simpática, até no dia de comprar ingresso um fez piada comigo, teria que ver o jogo calado, o outro, da portaria do clube, me dissera que melhor ver o jogo na torcida dos outros que o perder, imagina, um jogão desses, não vai ver? Pode ser, mas há o risco. Aqui, sem risco, fico quieto, sou um cronista, a tática, movimentação das equipes, qual o sistema de jogo?, talvez saídas mais pela esquerda, caralho, o Fluminense quase mete outro, ainda bem que não meteu, me distraí, gritaria esta merda, daqui não saía senão em horizontal. Ou verticalmente lançado ao campo de jogo, no compasso do bumbo.

Pena meu vizinho colombiano não ter vindo. Valencia joga muito, anula Riquelme sem anular a si mesmo. Só naquela jogada no início do segundo tempo, mas acontece. Agora, que esta falta vá longe, na barreira, vá perto, vá onde queira, menos no gol. Trave. Rebote, cadê a defesa, fodeu de vez, o que eu faço? Comemorar? Filho da puta do Somoza, e agora, puta que pariu. Levanto, aponto o placar, balanço a mão. Sento. Não tem jeito, sento. Ponho o José Hernández com a capa virada para cima, que observem, leio espanhol, sou daqui, sou um de vocês, estamos juntos – juntos é o caralho, que merda, termina isso. Empate não está mal, „Boca, Boca de mi vida, vos sos la alegría de mi corazón“, vão nos golear, isso é longe do inferno, no lugar do sorriso eu ponho o quê?, „Y dale dale Boca, queremos la Copa, la 12 está loca…“.

Apaziguamos. O gol deles não trouxe a pressão indesejada, apesar de a bola passar muito rápidos pelos nossos pés. E lá foi mais um chutão de Cavalieri. Desvio de cabeça, Wellington Nem domina, Caruzzo no chão, cruzamento, começo a levantar – é para ver o lance, amigo, só para isso, tranquilo – Deco chega, escora, ai, vai entrar, Orion toca nela, no, Orion atajala!, tem que fingir, é o instinto de sobrevivência, ou sei lá que merda, segura, segura, eles não reagem a esse 1×2. Abaixo a cabeça, semblante de lamentação.

Seguindo as regras locais, a torcida local só pode ir embora depois que a visitante tiver deixado as imediações do estádio. Ficamos literalmente presos, portões fechados, por mais de quarenta minutos. Eu observava o câmera desmontando seu instrumento de trabalho, ajeitando sua bolsa, o tripé.

Na volta para casa, uma longa caminhada até um ponto de ônibus mais distante, não podia compartilhar a frustação alheia. No único lugar que vi aberto, comprei um sanduíche de milanesa, frio, e comecei a comê-lo. Carne gelada, ainda mais à milanesa, mas o que importa, se temos a vitória. Três jovens cruzaram meu caminho, um me pediu um pedaço. Não neguei. Mais adiante, passando debaixo daquela sequência interminável de viadutos, perto de Constitución, um rapaz se aproxima, espalma uma das mãos, me acalma antes de qualquer coisa, e pede um pedaço. Entrego-lhe o que restava do sanduíche.

Ficaria aquela cena, debaixo dos viadutos, e não longe dos estúdios de algumas redes de televisão locais, como a última, não houvesse, na Avenida Independência, o ônibus do Fluminense passado por mim. Carros da polícia escoltavam-no. 

Madrugada.

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