Falam muito de deuses do futebol. Não sei se eles se interessam pelos cronistas deste mundo. Haveria algum deus em Heysel, entregando trinta e nove mortes a um relator atento e protegido da avalanche humana? Ou pensar que, em 1992, torcedores flamenguistas caíam ao lado de um rapaz, iniciante na arte da escrita, gerando uma catarata humana digna dos melhores textos. Não faz muito, os deuses, que ignoram pelejas entre cristãos e mulçumanos, visitaram um estádio no Egito.

Coube-me, por uma alteração algo alheia a minha vontade, viajar uma semana mais tarde a Florianópolis, perdendo, assim, o Figueirense x Brusque, no Scarpelli, e caindo, uma vez mais, na Ressacada, para Avaí x Metropolitano. Última rodada do turno, público pequeno para uma desesperançada e insossa equipe. Revi Cássio, ou o vi, porque não me lembro se, na passagem dele pelas Laranjeiras, cheguei a assistir a algum jogo seu. E vi, ainda, que ele, junto ao lateral esquerdo e ao número cinco, Bruno, abriram espaço para o 10 visitante entrar sozinho, ajeitar a bola, pensar, repensar, e chutar. Defensável – que o goleiro não defendeu.

Ficou aquilo uma partida de ataque desorganizado contra defesa exagerada, e o Avaí, pela quinta vez em seis jogos, saiu de campo sem vencer diante dos meus olhos. A única fora mesmo no Scarpelli, um 2×3 no clássico local, no Brasileiro 2011.

Corri para o ônibus, já estacionado nas imediações do estádio, e entrei na fila, enquanto ouvia, no rádio, as comemorações do título do Figueirense e os lamentos avaianos. Os do continente haviam derrotado por 5×1 a equipe de Camboriú, lá na casa adversária, naquela cidade de colonização argentina. O repórter anunciava muita mais torcedores do gigante Figueirense, coisa óbvia, e entrevistava gente feliz pelo título simbólico do primeiro turno, o que só gerava, na prática, uma vaga na semifinal do Catariense. E ganhar o segundo turno não seria obter uma segunda vaga e ter o direito de enfrentar a si mesmo, nada disso.

Chamam uma moça, feliz, aos gritos. No meio da torcida do Figueira, quanta emoção. Moça de Florianópolis, viajou no ônibus da torcida. „Feliz pelo título?“. Se alguém faz uma pergunta assim, se alguém que é pago – estamos numa época em que ser pago justifica qualidade – faz uma pergunta assim, esperamos uma resposta entre a grosseria e o espirituoso. „Foi campeão?“. Grande sacada da moça, provocativa. „Sim, campeão“. „Não sabia!“, e começa a gritar e cantar e o repórter não a detém mais. Ela volta ao microfone, some, volta, vai, aparece, desaparece. E desconfio que aquilo, de sarcástico, nada tinha. A moça fora mesmo sincera.

O profissional da rádio segue sua tarefa e repete a instigante pergunta a um rapaz. Antes, o questionário decorado, „É de Florianópolis?“, sendo resposta positiva, „De qual bairro?“. O entrevistado titubea, e é preciso que alguém ao seu lado diga o nome de alguma localidade. „Ô, rapaz, não sabe onde tu moras?“ Risinhos. „’Tás perdido?“. Risinhos. „E então, vais para Florianópolis, receber a taça lá na Ressacada?“. Alçando a voz, o entrevistado se indigna, „Ressacada?“. „Ops, não, no Scarpelli“, e o repórter fecha sua participação após ouvir, „Tu ‘tás mais perdido que eu, hein“.

Já dentro do ônibus, tomo conhecimento que a próxima partida do Avaí será em casa, na quarta-feira, diante do então segundo colocado, a Chapecoense. Mudo meus planos, adio a viagem de quarta para quinta, e cumpro a minha função. Minha tia, quem me recebe em sua casa, caçoa, afinal, Avaí x Chapecoense é jogo imperdível mesmo. Para mim, sim. E ela sabe disso.

De noite, 19:30, após uma tarde na praia, burguesamente leve e solto, mesmo que eu carregue livros de Roberto Arlt e Siegfried Kracauer, na tentativa de entender que o problema não está na praia de ninguém, mas no absurdo humano de que, para que alguns estejam ali, outros tenham de trabalhar até doze horas num dia. Ou mais. Injustificável, por ser injustiça.

A Chapecoense vem para empatar, somar seus pontinhos e seguir sua marcha para ter uma vaga na semifinal, por acúmulo de pontos dos dois turnos. O Avaí, modificado em todos os setores depois da sequência de três derrotas, cria uma bela oportunidade, negada pelo goleiro rival. E só. Como se fosse pouco, o apito do árbitro evoca uma chuva torrencial. Sem poética.

Havia menos público que no domingo, e os funcionários do clube, recebendo ordens por rádio – nunca pensamos por nós – permitem-nos passar do setor descoberto ao coberto. Pouco adianta, porque o forte vento lança a água contra nós. Especialistas locais avisam que é vento noroeste, e deduzo que é do continente para a ilha. Uma das torres de luz se apaga, parcialmente. O teto começa um ruído estranho, algumas placas parecem que serão arrancadas, e nós, em avalanche, buscamos abrigo, não da chuva, mas do teto. Debaixo da arquibancada, amontoamo-nos. Seguiam os especialistas explicando os desdobramentos dos ventos noroeste. E já davam por terminada a partida, sem chance de segundo tempo.

Poucos deixavam o estádio, porque lá fora havia uma cidade tão afetada quanto nós, já com letreiros de publicidade no chão, bairros sem luz, segundo informavam na rádio. Preocupava-me, mais que tudo, o fato de estar hospedado no continente, cujo acesso a ilha se dá por uma única ponte, ao lado da outra, a famosa dos cartões postais e sem utilidade alguma senão essa de ser paisagem. O termo ilhado soava imbecil de tão óbvio. E senti compaixão por aquele repórter das perguntas instigantes.

Com algum atraso, iniciou-se o segundo tempo. O campo alagado dificultou o que por si não estava fácil, e o 0x0, meu primeiro do ano, foi mantido. Sob vais, Mauro Ovelha, o treinador local, deixou o gramado.

Peguei o mesmo ônibus, que era outro, claro.

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