O calendário de 2012 prometia um ano com mudanças de apartamento, com certas traduções, alguma melhoria na qualidade geral de vida e, até, a compra de um piano. Prometia um início de temporada futebolística com Club Atlético Vélez Sarsfield x Club Deportivo Godoy Cruz Antonio Tomba, no José Amalfitani.
Deu-se que mudança houve. Não ao lugar desejado, muito menos da maneira desejada. As traduções não deixaram de permanecer entre papel e cabeça, mas os seus prazos e suas perspectivas de publicação descambaram a um desprojeto ou semelhante. Melhoria, talvez, o fato de não ter sido pior do que foi, o que nos remete a esta má coisa da sorte no meio de uma catástrofe. Má coisa que o espírito dirá boa, pois é nela, e talvez só nela, que ele se agarre. Piano recupera seu lugar de sonho.
Entrei um pouco menos de uma hora antes de começar a mencionada partida. Na revista policial, o uniformizado tomou-me o lápiz, que foi parar no chão de Liniers. Perguntei o que poderia fazer com um lápiz, no sentido de má coisa, evidente. „Matar uma pessoa“, argumentou. Ando mesmo perigoso, e se em 2007 não pude entrar com caneta, em Parque Patrícios, agora não ouso nem com o lápiz. E, nestes lados, melhor ficar bem calado e quieto, porque o último que abriu a boca, no Almafitani, terminou morto, antes de entrar no estádio. Era um jogo contra o San Lorenzo, e o predefunto era cuervo. Recebi a notícia pela internet, quando me encontrava em Bergamo, Itália.
Não era minha estreia em 2012, porque antecipava a este encontro os dois Lamadrid, no Enrique Sexto, e o Ferro Carril x Gimnasia y Esgrima (Jujuy). De primeira vez, sim, o Godoy Cruz, equipe mendocina que vem fazendo boas campanhas, inclusive entrando na Copa Libertadores deste ano. Contam com um centroavante muito bom, Ramírez, e um meiocampista de qualidade acima da média, Diego Villar.
O camisa oito do Tomba, com uma barba negra bem cheia, cabelo volumoso com franja sobre os olhos, lembra-me um boneco do Comandos em Ação. Não os inimigos do Cobra, não esses. Passa quase todo o jogo preso do lado direito do gramado, dando passes em diagonal e lançamentos que visam a encobrir a zaga adversária, pega ainda na corrida de se restabelecer, ou seja, virada contra seu próprio gol. E foi assim que ele meteu uma bola magnífica para Castillón empatar o que Óbolo decretara 1×0.
A quem lhe interesse o futebol bem pensado, vale ir a qualquer estádio onde este rapaz se apresente. Vale até segui-lo por Buenos Aires, quando sua equipe vier quase dos Andes para a Capital. E considerando a região metropolitana, isso acontece algumas vezes no ano. Vale, se o indivíduo mora mesmo em Buenos Aires, torcer para que algum clube, que seja o rival, não importa, o contrate. Claro, se é assim, que não se tome o rival como um inimigo, e que tampouco o ciúmes de ter sido preterido faça com que a paixão pelo futebol barbudo se mingue.
Pois eu, que ando a entrevistar poeta gaúcho, sei bem que „esquece, lentamente/ quem estava de passagem – e no movimento se apaga – o descampado da noite“.

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