Não foi bom presságio descer a rampa da estação de trem e ver o ônibus do América chegando ao Maracanã, com Marco Brito à janela, semblante tranquilo. Os renegados sempre nos aprontam alguma, e como não lembrar de Franklin, eliminando-nos do Campeonato Brasileiro de 91, ante nossa torcida. Evidente, os apóstatas praticam o ato com inclemência: Franklian defendia o Bragantino. Calou-nos sem nunca nos haver feito gritar.

Empate ou derrota e estaríamos eliminados, amargados em ficar uma vez mais fora da semifinal da Taça Guanabara. Quando em 2005 fizemos um Fla x Flu dos eliminados, protestaram; em 2006, derrotados pela Cabofriense e fora da disputa, nos queixamos. Agora, pelo visto, não comparecerá o inesperado; a torcida, resignada, parece esperar a Taça Rio. Ou nem isso. Os americanos, líderes do grupo e a uma vitória da classificação, são os de sempre: ausentes. O futebol de cinco Copas do Mundo é deprimente. Fala-se em violência. Fala-se em preço dos ingressos. Fala-se. Um grupo de três rapazes se espanta com a obra no estádio, comentários da novidade e certa repulsa: “Essas cadeiras são coisa de europeu. Europeu, civilizado”. Mais que deprimente.

Aos dezesseis do primeiro tempo, demonstramos nossas intenções sérias nesta partida. Carlinhos para Alex Dias, domina e, de virada, arremata. O goleiro salva. A noite é nossa, não restam dúvidas. O juiz tropeça aos vinte e cinco e cai no chão, gargalhadas, que viram gritos de incentivo três minutos depois, com a linda jogada de Carlinhos; drible seco, chutaço de fora da área. Novamente, o goleiro salva. Temos o domínio, passamos bem a bola, controlamos as ações. Nem o ataque americano aos trinta e seis nos estremece. Marco Brito prova que não mudou, e perde. O placar anuncia um minuto de acréscimo, nosso treinador, ameaçado de perder o cargo, terá o intervalo para ajeitar o time e faremos os gols necessários no segundo tempo. Alçam uma bola na nossa área, basta nosso goleiro sair e agarrá-la, fim da etapa inicial. O zagueiro cabeceia, tudo bem, ela sobra perto da marca do pênalti, ali sempre há um defensor. Gol. Bruno Lazaroni. Inverossímel. Puta que pariu.

Mesmo com a derrota, existem possibilidades matemáticas. O Vasco enfrenta o Volta Redonda no domingo, um empate, talvez, e depende do saldo de gols, poderemos derrotar a equipe cruzmaltina na última rodada, quem o Volta Redonda pega? De qualquer maneira, se não virarmos o placar, o empate, ainda na dependência do jogo do Vasco, pode não ser tão catastrófico, quer dizer, é catastrófico, mas pode não ser a eliminação matemática, um torcedor vestido de He-Man transita pelas cadeiras, está escrito, o nosso salvador virá do banco e reverterá o resultado.

O Fluminense tenta, não encontra espaços, o América se defende bem, Válber indica com maestria o posicionamento dos companheiros, sabe a cadência exata. Carlos Alberto não vai além da disposição. Atrás do gol, os reservas se aquecem, param na hora de um lance mais perigoso. Nosso treinador aguarda. Vem alguém da comissão técnica, grita para o preparador físico. Claro, ele, Rafael Moura, como estava escrito. Hesitação, ele volta, vai Ivan. Lateral esquerdo? Para quê? Ao se aproximar de PC Gusmão, o jogador é rechaçado, retorna para trás do gol. É mesmo Rafael Moura. Posso prever o diálogo: “Chama o He-Man”. “Ivan!” “Não é Ivan, é He-man!”. Não importa, isso é pequena falta. À beira do campo, Rafael Moura faz gestos com a cabeça, dá saltinhos e tudo. Contém a postura do jogador decisivo. O quarto árbitro acende a placa, assim que a bola parar, a substituição será realizada. O América ataca, parece impedimento, mas o bandeirinha levanta o braço. O atacante domina, dribla o goleiro. Gol. Aos vinte e seis, dois a zero. Marco Brito.

Antes de dar a nova saída, entra o He-Man. Nada muda. Não era ele.

 

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