Chego 12:25 ao clube e retiro mina carteirinha de sócio, número 890. No barrestaurantecafeteria, circulam torcedores, crianças com patins, funcionários. Estaria, aqui, o senhor que deixou as milanesas queimarem, quando leu minha crónica sobre o time dele? São quase setanta estádios na carreira, mas admito que estar aqui é diferente  de uma visita a Ressacada, Morumbi, Badenova ou El Cilindro. Não pela obviedade de que nenhum lugar repete o outro, ou mesmo porque nenhum lugar se repete. Há, entre mim e este clube, uma comunhão. Uma história anterior.

Chego para meu primeiro jogo do Club Atlético General Lamadrid, no seu estádio, Enrique Sexto. Por tantas coincidências, justo no momento em que o clube retorna a casa, após mandar seus primeiros jogos na Primera B em terrenos alheios, por conta de reformas.

Reconheço a ansiedade; cada minuto da escrita, um desafogo. Pela TV, jogadores do Defensa y Justicia comemoram. 1×0 sobre um rival que, daqui, não identifico. Por seis pesos, um cono de fritas.

Começa Ferro x Quilmes. Ao fim do primeiro tempo, talvez seja o momento de buscar o acesso à arquibancada. Incortonável lugar comum: pareço um forasteiro nos moldes da chamada literatura sulamericana. Passa um rapaz com a camisa do Racing. Vermelho para alguém do Quilmes. Com o projeto de desativar o presídio, vizinho à sede do clube, o governo poderia aproveitar a estrutura e o nome Lamadrid para uma revitalização do bairro. Houvesse interesse em melhoras, claro. Foi para o goleiro, pênalti. Jamais deixariam de ser o Carcelero, decerto. Gol do Ferro.

Resolvo dar uma volta pelo quarteirão. Casas, muros, alguma coisa estranha, presídio, uma entrada para visitantes, hoje, servindo para a imprensa. Um carro se aproxima, para perto de mim, e o carona pregunta, “Onde fica a entrada de imprensa?”. Nem Juan Dahlmann. Mais adiante, torcedores reunidos, policía e um portão. Sento-me, faço anotações, aguardo que seja liberada a entrada.

Começam a revista, sou o último. Tenho o caderno, a caneta e minha carteirinha de sócio à mão. O policial indaga se sou jornalista, nego, olhando para a carterinha com minha foto e dizendo, “sou sócio”, ao que ele rebate, “o senhor é sócio vitalício?”. Nego. Deixado o policial pata tras, vem o rapaz que controla as entradas. “O senhor é jornalista?”. Segue o mesmo, sendo que, no lugar de vitalício, ele se espanta, “sócio do Lamadrid?”.

O Lama joga muito melhor. Chances, defesa firme, jogadas pelo chão. Abel Fregenal controla a partida pela esquerda. Gastón Viqueira protagoniza os dois lances mais agudos: um gol perdido, no popular cara-a-cara com o goleiro; um penalti sofrido, não cobrado pelo juíz.

Na segunta etapa, Alejandro Granero quase entrega, em segundos, o ótimo primeiro tempo carcelero. Uma falha que gera um escanteio, uma falha no escanteio. Desde a penitenciária, sentinelas assistem ao jogo, em cima do muro. O Deportivo Morón em nada lembra aquela equipe que vi duas vezes, no bairro homónimo. Os anos na categoría, alguma esperança de B Nacional, nada disso afronta o Lamadrid. Em mais um dos tantos ataques da equipe local, gol – imagino ter sido Viqueira. No final, o Morón acertou um chute no ângulo, mas Granero salvou o bairro.

Poucos días depois, ainda voltaria ao Enrique Sexto, para a partida contra o Dock Sud, pela Copa Argentina. Ninguém me perguntou se sou da imprensa, o Lamadrid não jogou bem – sequer o Dock Sud – e, na decisão por penaltis, a classifcação à próxima fase, após o 1×1. Não que tenha sido fácil, pois os visitantes ganhavam 3×4 quando tiveram o quinto penalti. Defesa do goleiro – não era Granero – e sobrevida. Os locais convertem o quinto, deixam em 4×4, e, logo na sequência, ambos os times repetem a orden: perdido e feito. 5×4 Lamadrid, cânticos, festejos e a boa sensação do deber cumprido.

Ainda usei esta coisa estranha, o celular, para chamar minha namorada e deixá-la ouvindo, “hoy Carcelero te vengo a ver…”.

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