Quando todo o peso recupera lembranças em Buenos Aires; quando esperanças já não cabem sequer nos restos; há, ainda, alguma celebração centenária.

Procurava, bem verdade, um caixa eletrônico, que encontrei alguns metros depois de passar pela banca de jornal onde estava exposta a revista Clarín, comemorativa dos 100 anos do Club Atlético Huracán, apelidado El Globo. Era nos moldes de outra revista comemorativa, a de 2010, feita para o Club Atlético Vélez Sarsfield. Estabeleci, como se poderia prever, que voltaria àquela banca, após sacar o dinheiro que me serviria para diminuir o estado de mendicância, típico das minhas estadas na cidade portenha. Mesmo soa estranho que eu inverta as taxacões de câmbio, haja vista a minha época de pseudoluxo, na Zona Euro.

Mentiria, se afirmasse que, naquele instante da revista ante meus olhos, houvesse pensado o que me ocorre somente agora: o Huracán, jogando de local, contra o Tigre, fora o clube número 100 da minha carreira como espectador de futebol. Ido 2007. Era Parque Patrícios, bairro do estádio onde o policial me impediu de entrar com a caneta, a de anotações para as crônicas. Vem-me outro problema de memória, e meu amigo poeta, tão atento, acusar-me-á de repetir tolamente o Herberto Helder, de Photomaton & Vox – Adiantará jurar que nao?

O problema; o da memória: foi no mesmo dia? O evento caneta foi de tarde, dia ensolarado, isso é certo. E gerou o título da crônica „Mis palabras matan“, referência a um verso da canção „Matador“, dos Fabulosos Cadillacs. Banda que me fora apresentada justo pelo meu amigo poeta, meses, talvez semanas antes da viagem de 2007. É certo que os dois jogos foram no mesmo ano, este de intensos e até hoje insuperáveis 117 partidas, em estádio. Mas penso que aquele Huracán 0x0 Tigre fora à noite. Havia o Franzoia, ex-Boca. Que fique, pelo menos provisoriamente, a dúvida.

Tenho manias. Muitíssimas. Uma delas é a de não retornar poucos metros. É importante marcar a distância, porque retornar é algo que faço com bastante frequência. Por exemplo, escrevo esta crônica no Café de la Ciudad, onde estive inúmeras vezes, desde minha primeira visita a Buenos Aires, em 2002. Em 2009, assisti a um Estudiantes de La Plata x Cruzeiro, fase de grupos da Libertadores. Acabou sendo a final daquela edição, vencida pelos argentinos. No mesmo dia, da primeira fase, não da final, fazia uma leitura/análise poema-a-poema do primeiro livro de Gonzalo Unamuno. Na mesa ao lado, uma mulher, atraente, uns quarenta anos. Sozinha. Com dificuldade, pedia coisas ao garçon. Lá pelo fim do jogo, chega um homem, elegante, todo de branco – fazia frio, era um branco em lã, algo assim. Se não erro, era uma brasileira à espera de um argentino. Tiro as medidas pelo pouco que pude escutar do diálogo. Admito: por pouco, não a abordei, antes da chegada dele, evidente. Tanto tempo só, já não esperava eu que ele esperasse alguém. Não bem desejo sexual. Cativava-me alguma história, ali. Às vezes, histórias interessam mais que camas.

Não voltei à banca de jornal. Tampouco, desisti da revista. Sem querer perguntar jornaleiro por jornaleiro, apenas desacelerava o passo, enquanto procurava, no meio de tanta revista e bugiganga, a Clarín – Huracán 100 años. Não houve jeito, fiz uma peregrinação em círculo, por uns vinte quarteirões, e voltei a Avenida Corrientes. Deveria ter calculado a posição da banca pela do banco, mas, distração, erro sério para qualquer cronista, deixei passar isso. Fui, assim, banca por banca, olhando atentamente, e, quanto mais não via a revista, mais aumentava a preocupação de alguém a ter comprado, entrementes. Somente quando reavistei o banco, localizei o jornaleiro. Para lá, diretamente, e tudo certo. 19,90 pesos.

Nota de cinquenta. O rapaz não esboça reação, e o senhor ao lado, bigodes brancos, pega a nota. Certa demora, dá-me dez centavos. Aguardo. Finalmente, os 30 pesos restantes. Diz-me alguma coisa. Não escuto. Repete-me. Escuto, mas não entendo. Repete-me: „O senhor sofre como nós“. Sigo sem entender. „Como os senhores?“. „É, também somos Huracán“. Explico, e com fala mais longa é provável que tenham notado minha estrangeiridade, que sou mero interessado por futebol, por clubes, por histórias dos clubes, não sou Huracán. O rapaz – neto? –, a mesma reação de antes, sem que sua expressão fosse repulsiva. O senhor ainda tenta me dizer que na revista está „toda a história“ – mais lugar comum que pretensão. Desejei-lhes, naquele instante com toda a sinceridade, que o Huracán voltasse à Primeira Divisão.

No albergue, dei-me conta: o centenário fora em 2008.

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