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Posso dizer que a minha primeira Copa do Mundo foi a de 1986, no México. Não entendia tão bem o que se passava, mas entre o meu álbum de figurinhas e as notícias de televisão, construí alguns dados que permaneceriam até os dias de hoje, moldando coisas e direcionando escolhas na minha vida.

Lembro-me das figurinhas com as equipes formadas, sobretudo as da Argélia e da Polônia. Passava os dias desenhando as bandeiras e os escudos, e, não sei bem o motivo, era o da Bélgica o que mais me cativava, a ponto de eu ter comemorado a vitória da equipe dos Flandres contra os espanhois, nas quartas-de-final. Na época, não sabia o que era uma decisão por pênaltis, muito menos quartas-de-final; era uma vitória, importante de algum modo.

Também o Brasil, claro, preenchia meus dias. Gente pelas ruas, pinturas – não foi este o ano do Laranjinha? – e aquele gol do Josimar, contra a Irlanda. Depois, uma bola na trave, no pênalti batido pelo Júlio César, Sócrates abraçado a alguém, chorando, e a eliminação diante da França. O Fernando Vanuti, aquele apresentador de programas esportivos, apareceu dizendo “Certamente, você tem vontade de chorar hoje, eu, também“. Logo depois, uma moça às lágrimas. Talvez, quinze anos depois, me equivoque, mas não fiquei triste com aquilo, embora tivesse compaixão pelos meus compatriotas que caminhavam desiludidos pelas ruas do Rio de Janeiro.

A final foi-me muito mais séria, e naquele Argentina 3×2 Alemanha, convivi com a decepção, após ter comemorado, no chão da sala, o gol do Rummenigge. Ele, deslizando de joelhos pelo gramado, fez-me sonhar, até que o Burruchaga acabou com tudo. (Uma nota: o gol do Rummenigge fora o primeiro, e o do empate momentâneo, 2×2, fora do Völler. Na minha memória, sempre ficou o contrário). Enquanto os argentinos festejavam, eu desviava minha atenção para algum brinquedo, sem poder dividir a angústia da derrota com ninguém, já que a única coisa que havia, ao redor, era indiferença para com os alemães.

Dois anos mais tarde, nas Olimpíadas de 88, em Seul, a equipe germânica caiu novamente. Desta vez, nos pênaltis, mas contra o Brasil, que viria a perder a final para a União Soviética, com um gol de cobertura sofrido pelo Taffarel. Aquilo, nada mais que um interlúdio.

Na Copa de 90, pude vingar-me de todas as derrotas, e acompanhar aquela máquina, que era a seleção do Beckembauer. Não foi fácil, porque a imprensa insistia em dizer que fora a Copa mais desisnteressante de todas e com o pior nível técnico. Como eu poderia julgar, se era a minha segunda, quase que primeira? Sei apenas que, a cada vitória alemã, eu parecia chegar mais perto do meu triunfo. Houve, entrementes, a derrota brasileira, contra a Argentina. A decepção dos demais pareceu-me menor que a de quatro anos antes, e eu não era mais que espectador. Nunca gostei de festas, de oba-oba na rua, e comemorei a vitória na final, com o gol do Brehme, de pênalti, devidamente: em casa, vendo as notícias e olhando meu álbum de figurinhas.

Nas duas Copas seguintes, dois dias terríveis: a inesperada derrota contra a Bulgária, em 94, e a humilhação diante da Croácia, em 98, ambos nas quartas-de-final. Aquele time envelhecera, como todos e tudo. As festas dos demais, nas ruas brasileiras, eram capitalizadas por grandes redes, deixavam de ser encontro para os jogos; as partidas eram mero pretextos para a reunião de gente desisnteressada no futebol. Ninguém chorava a derrota para a França, na final: apenas acusavam os patrocinadores de algum tipo de complô.

Em 2002, quando Brasil e Alemanha se enfrentaram pela primeira vez na história das Copas, justo na final, vivi uma espécie de indiferença. Acho mesmo que queria a vitória brasileira, já que, àquela altura, antes mesmo de ler Jorge de Sena, entendia que o mundo me tinha obrigado a ter uma pátria, sem que eu pudesse escolhê-la. Já frequentava o curso de alemão, e aquele 2×0, com uma falha bisonha do Kahn, serviu para as tolas piadas com os professores do curso.

Quando a Copa voltou a ser disputada na Alemanha, em 2006, eu já era mesmo um espectador, sempre interessado em todos os jogos, mas talvez menos preocupado em torcer. Era mais uma derrota para a França, minha terceira, e, quando a Alemanha enfrentou a Itália, nas semifinais, eu já queria acabar com aquilo, de modo que a derrota me abreviou as coisas. Talvez, o meu grande jogo em território alemão tenha mesmo acontecido exatamente cinco anos antes do meu nascimento – e no dia do nascimento de Zé Roberto: Brasil 0x1 Polônia, em Munique, pela decisão do terceiro lugar.

A decisão do terceiro lugar, da Copa de 2010, vi na Alemanha, na pequena cidade de Tübingen, ao sul de Stuttgart. Abraçado a Forlán, perdi por 3×2. O mesmo placar da final de 86. No entanto, já não havia Rummenigge, não havia título, nem choros nas ruas. E eu, com uma pátria dada e uma chuteira comprada; e muitas línguas.

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