General Lamadrid é um personagem histórico – tremendo oxímoro, „personagem histórico“. Mas não é dele que quero falar. Interessa-me o homônimo clube do bairro Villa Devoto, de Buenos Aires. Disputa a Primera C, torneio que equivale à quarta divisão do Campeonato Argentino.

Sabe a humanidade, sempre tive imensa simpatia pelo Clube Atlético River Plate, mas, como a assimetria do destino possui dimensões diversas, ocorreu-me ter uma namorada torcedora do Clube Atlético Vélez-Sarsfield. Era, por um lado, uma faixa vermelha, em diagonal; por outro, um V azul. Desta fusão, acrescentando ao fato que Villa Devoto é perto de Villa Luro, onde ela mora, nasceu meu interesse por Lamadrid, cujo uniforme é branco, com uma faixa azul em diagonal. Mais uma brincadeira que qualquer coisa.

Como anda a equipe? Passei, por casualidade, a acompanhar a campanha da temporada 2010/11. Bem posicionados, um pouco atrás de Liniers, disputando a vaga para subir à Primera B. No sítio do clube azul e branco, um anúncio: escute as partidas do Lama, na rádio Noventa FM. Morando fora do país, na verdade fora do Continente, era uma oportunidade. Graças à transmissão pela internet e ao fuso horário, podia seguir sem problemas.

Pouco a pouco, a equipe foi crescendo, e, aproveitando-se da queda do Liniers, assumiu a primeira posição. Eu, claro, não perdia um jogo. Às vezes, tinha de sofrer uns minutos, porque a transmissão sumia, ou era atravessada por uma música, como na vitória contra o Midland, em que fiquei minutos e minutos a ouvir, entre outras coisas, o popular funk carioca. E nada de voltar a voz do narrador, aquele senhor – não sei mesmo se é um senhor – que sofre mais que qualquer aficionado. Parece que está comigo, abraçado, na arquibancada, e se pendura no alambrado a cada gol do Lama.

No jogo contra o Liniers, um confronto direto, o drama maior: silêncio. Desliguei o computador, talvez fosse a conexão, algum sistema, sei lá. Nada. Fechava e abria o site, mexia nas configurações de som. Nada. Não bastasse o impedimento de escutar a partida, ao vivo, há-de imaginar-se que acompanhar a quarta divisão do Campeonato Argentino, pela internet, comporta alguns limites. Não é após o apito final que o resultado aparece em algum sítio. Com sorte, algumas horas depois. Sequer pelo sítio do adversário se consegue alguma notícia. É mais que um desespero. Fiquei nesta ansiedade, prejudicando todas as minhas demais atividades, até que, por sorte, apareceu no sítio do Lama: vitória 3×1! Na rodada seguinte, outro confronto direto, contra o Talleres de Remedios de Escalada, na casa do adversário. Um domingo, às 11 hs, horário de Buenos Aires. Cá, em Bergamo, cinco horas a mais. Como Deus e o Diabo respeitam o sofrimento do torcedor de futebol, a conexão funciona bem, a transmissão, limpa, fluente, nítida.

De cara, o quadro de Villa Devoto mete 1×0. Não muito depois, 2×0. Mesmo com o árbitro favorecendo a equipe local, o Lama se segura bem, tem o domínio do jogo. Se a posse de bola do Talleres é maior, isso não diz muito, porque não agridem, não se aproximam do gol. Importantíssimo terminar a primeira etapa com este 2×0. Vai bater o desespero nos donos da casa, os espaços para os contraataques serão maiores. Tudo aquilo que já conhecemos do futebol, desde não sei quantos anos.

Escanteio. Gol. 1×2. Vai complicar. Com este árbitro e a pressão da torcida, vai complicar. Não podia. Esta vantagem não era apenas a da partida, era a do torneio, era a da quase concretização do acesso à Primera B. Não podia. Desatenção em cobrança de escanteio, o que é isso, juvenis? Estamos brigando por algo mais sério, não se pode dar bobeiras assim. Não se pode. Agora, quarenta e cinco minutos de sofrimento, além dos quinze de espera antes destes quarenta e cinco, e os acréscimos, meu Deus, muita coisa. Cadê o Diabo? Gol. Gol, é isso, Lamadrid! Lutar sempre! 1×3, é isso, a vantagem que precisávamos. Alívio, aumentado com a expulsão do defensor do Talleres, quando já passávamos dos quarenta e cinco da primeira etapa.

Nos quinze minutos de intervalo, passeava pelos sítios europeus, Lega Seria A, Bundesliga. A Sampdoria entrava na zona de rebaixamento, o Bayern München metia 4 no Leverkusen, a Lazio se aproximava da Internazionale, na luta pela vaga direta na Champion’s League. Tudo passa.

Tudo da melhor maneira, até o sítio do Lamadrid oferecia informações no intervalo de jogo, detalhando os autores dos gols. Eu seguia com a rádio, disfrutando de uma narração bastante peculiar, ausente das grandes rádios, pelo menos nos chamados tempos atuais. Não era apenas o Lamadrid que me tomava naquela angústia de poder gritar „estamos na Primera B“. O jogo narrado era vivo, ali, diante de mim. Sem os pretensos exageros dos narradores renomados, o que se ouvia era uma variação rítmica exuberante. De uma jogada complicada, de uma falta perigosa, passava-se a „os aplausos que os senhores escutam, é porque entrou o vendedor de amendoim queimado“, num tom espontâneo, uma espécie de sossego momentâneo ao coração lamadrilenho.

Quando o árbitro decretou o 2×3 final, pondo margem de nove pontos para o segundo colocado, restando apenas quatro rodadas, celebramos todos. Até os torcedores do Talleres deixavam mensagens no sítio do Lamadrid, reconhecendo a grandeza da equipe e do clube. Nós, torcedores, pudemos acompanhar apenas de longe a festa que faziam os jogadores, porque “o bandeirinha não os deixa chegar perto da torcida”.

Antes de fechar a janela da rádio, ainda tive tempo de ouvir, “Un botonazo el línea!”.

Anúncios