Quando o juiz apitou o fim do jogo entre Brescia 1×1 Internazionale, na sexta-feira, 11 de março, não houve torcedor do Milan que não se tenha já considerado o mais novo detentor do Scudetto. A diferença ficava em quatro pontos, e, no domingo, a equipe rossonera teria, em casa, o último colocado, Bari. Para que se pensasse bem, bastava olhar a distância entre esta humilde equipe do sul e a penúltima colocada, ironicamente, o Brescia: nove pontos.

Bem que os interistas não sabiam se lamentavam ou se sentiam alívio, haja vista que poderiam ter perdido o jogo sem problemas: foi disperdiçado um pênalti, contra a Inter, aos 90 minutos de jogo! De qualquer maneira, com a vitória milanista, a coisa ficava em sete pontos, relativamente poucas rodadas, e um derby cujo valor seria apenas o de retardar o sofrimento, mantendo as famosas „chances matemáticas“ de título.

Se eu não havia ido a Brescia, que, embora esteja a uma hora de Bergamo, onde estou, não oferecia boas possibilidades de retorno nem de hospedagem, fui, porém, a Milan x Bari. O horário, indigno, mereceu uma manifestação por parte dos torcedores, que jogaram com o nome da empresa que detém os direitos de transmissão: „Partita alle 12:30 fa skyfo“. E nem é dizer que não tinham razão. Onde já se viu jogo às 12:30, num domingo?

Era minha primeira vez num jogo deste rubronegro que desde sempre me causou repúdia, muito por conta dos famosos duelos dos anos 90, quando três holandeses – Gullit, Van Basten e Rijkaard – enfrentavam os três alemães da Inter – Klinsmann, Matthäus e Brehme. Sobretudo o primeiro fora responsável até pelas minhas primeiras camisetas de futebol, que não as do Fluminense: Alemanha 1990 e Internazionale.

Para provar que o San Siro não é o meu lugar, a loja que vende bilhetes para espetáculos, em Bergamo, dispõe somente de entradas para os jogos da Inter; do Milan, nada. Assim, tive de chegar bem cedo, tentando evitar filas e confusões, para comprar o ingresso. Mesmo pegando o trem às 9 da manhã de Bergamo, numa viagem que dura 48 minutos, ainda mais ou menos 20 de metrô e 15 a pé, nao consegui evitar o tumulto. Muito porque o rapaz a minha frente queria treze entradas, sendo duas delas para gêmeos de mesmo nome (!). Como os bilhetes, aqui, são nominais, e os gêmeos ainda por cima levaram documentos diferentes (um, o de identidade, outro, a de motorista), não puderam entrar. Na ânsia, começou um pequeno empurra-empurra, o que provocou o seguinte diálogo entre um jovem e eu: „Me empurras“, diz ele. „E?“ „Me empurras“. „E? Estou aqui“. Seu amigo, atrás, pergunta: „O que que tem?“ „Cruzando o olhar comigo, ele responde, „nada“. A universalidade rossonera.

Situação resolvida, fomos todos, menos os gêmeos, para o jogo. Uma atuação sem criatividade do Milan, um Pato que só corria, ninguém armando jogadas, a não ser Gattuso, e Van Bommel batendo, como já fazia no Barcelona, Bayern, na seleção holandesa, acho que mesmo até no recreio do colégio. O Bari, sem saber, abriu o marcador. Era mesmo de não acreditar. Um gol à la sueca. Exatamente como aquele gol do Brolin, nas quartas-de-final da Copa de 94, quando os escandinavos bateram os romenos, nos pênaltis.

No segundo tempo, o Milan pressiona, o Bari se defende do jeito que pode e que não pode, e seguimos as lógicas comuns do futebol. Dois gols milanistas anulados e parecia que aquilo que eram dois pontos perdidos pela Inter, na sexta, se convertiria em um ponto ganho, reforçado ainda mais pelo já mencionado pênalti perdido pelo Brescia. Complicando a coisa, Ibrahimović, talvez mexido pelas sua lembranças de adoslescência, após rever, em campo, um gol com o qual decerto vibrara na TV, meteu um soco no estômago de um barese e foi expulso.

O Bari, a única coisa que faz, é chutar bola para frente, e esperar que o Milan volte. Numa dessas, o chutão vira lançamento, o contraataque se forma, e o argentino Almirón, só com o goleiro à frente, tenta um chute mais caprichado, algo entre o três dedos e a parte lateral exterior do pé. Não me pareceu que tenha sido um erro, mas mesmo uma intenção, este precioso movimento. Bola fora.

Jogada seguinte, cruzamento, Cassano, que entrara no lugar de Robinho, escora. 1×1. 82 minutos. Ainda há pressão rossonera, mas a coisa fica do jeito que começou: cinco pontos de diferença entre Milan, líder, e Inter, segunda colocada.

Na rodada seguinte, é a vez do Milan entrar em campo primeiro, no sábado, visitando o irregular Palermo. Mesmo em meio de tabela, não faz muito tempo, a equipe siciliana levou um 0x7 da Udinese, com todos os gols divididos entre o chileno Alex Sánchez e o artilheiro da competição, Di Natale. Não acompanhei o jogo, nem por tv, nem por rádio. Ao conferir o resultado, na internet, a meia supresa: Palermo 1×0 Milan. Permanecem os 5 pontos, e a Inter, no domingo, recebe a fraca Lecce, no Giuseppe Meazza, que é o San Siro com outro nome. Não bastasse isso, vêm motivados por haver eliminado o Bayern Munique, nas oitavas de final da Champion’s League, num apertadíssimo 2×3, com gol de Pandev nos minutos finais da partida.

Na briga contra o rebaixamento, a Lecce entendeu que um ponto era mais que suficiente, dadas às condições do torneio. Fez o que aqui chamam de catenaccio, ou o nosso popular ferrolho. Conseguiram até os 52 minutos, quando Pazzini fez aquele que seria mesmo o único gol do jogo. Ficou a Internazionale a um ponto do Milan, tendo justamento o derby do dia 2 de abril, é dizer, da próxima rodada, para mudar o rumo do campeonato.

Na minha volta a casa, naquele longo caminho a pé + metrô + trem, aproveitei a baldeação da linha vermelha para a verde, na estação Cadorna, para comprar uma água. Pus uma moeda de 2 euros; a máquina seguiu dizendo-me, pelo visor eletrônico, que o crédito era zero. Mudei de máquina, paciência, dois euros mudam pouco a vida de um sujeito, quando a situação nao é de penúria. Pus uma moeda de um euro. A outra máquina, provavelmente mancomunada com a primeira, fez o mesmo.

Sem água, nos cinquenta minutos de trem entre Milao e Bergamo. Acontece.

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