Entrar em estádios de futebol não é uma tarefa propriamente fácil. Engana-se aquele que pensa que falo de sistemas corruptos de venda de ingresso. Primeiro, porque não há „venda“ nestes sistemas, que direcionam entradas para setores como turismo, patrocinadores, e sabe-se lá mais o que. Segundo, porque não trato, aqui, de eventos de grandiosidade como Copa do Mundo ou Olimpíadas, aos quais, infelizmente, nunca fui. Falo mesmo do estádio do dia-a-dia, aquele do torneio local, do time pequeno, médio ou grande, do clássico ou da partida que nem figura nos jornais.

Minha primeira dificuldade aconteceu ainda no meu primeiro ano como espectador, em 1992. Foi justo naquele momento em que o Maracanã se encontrava em obras, após o incidente com torcedores do Flamengo, na final do Campeonato Brasileiro. Não me lembro se houve mortos – feridos, sim, claro – quando a grade da arquibancada despencou, e pessoas caíram sobre as cadeiras, no anel inferior do estádio. Isso gerou o insano deslocamento da final da Copa do Brasil, entre Fluminense e Internacional-RS, para as Laranjeiras, cuja capacidade oficial, na época, era de 8 mil pessoas.

Sem entrar nas discussões sobre a veracidade deste contagem, importa que, horas antes, muitas horas antes, consegui, juntamente com dois amigos, as entradas. Ou seriam dias antes? Lembro-me, somente, da minha absurda ansiedade, o que me levou a sair bem cedo de casa, fazendo com que, no final das contas, eu pudesse ter conseguido ver o jogo desde dentro do estádio.

Inicialmente, respeitei filas. Não durou muito, pois estava claro que o respeito, ali, não valia coisa alguma. Com a força de uma garoto de 13 anos, juntei-me ao empurra-empurra na entrada, que, literalmente, é uma entrada de estacionamento, e encarei quem quer que fosse, mesmo a polícia, que me atingiu com cacetetes na barriga. Entrei. Após alguns minutos procurando um lugar desde onde eu pudesse ver a partida, entraram as equipes. Venceríamos o jogo, por 2×1, e perderíamos a final, no Sul, com um gol de pênalti roubado.

O cronista é a vergonha do Brasil

1993. Minha mãe não estava interessada em dar-me dinheiro para ver jogos de futebol, a não ser que isso envolvesse o Fluminense, minha equipe. Portanto, para conseguir algum jogo do Flamengo ou do Botafogo – na época, não ia a Sao Januário – somente com artimanhas, como juntar troco do lanche do colégio ou até mesmo não lanchar. Nem sempre isso funcionava, devido à disparidade entre o valor do lanche e o do ingresso, que ainda se somava a passagens, evidente.

Certa noite, Flamengo x Internacional-RS se enfrentariam pelo Campeonato Brasileiro, jogo sem tanta importância, meio de semana. Estava o Casagrande na equipe rubronegra, e dois amigos meus, flamenguistas, queriam ir. Numa articulação digna destes romances infanto-juvenis, um deles propôs que fôssemos, mesmo sem ter o dinheiro dos ingressos, pois sua tia, representante de uma das facções da torcida do Flamengo, nos daria entradas. Hoje, eu fugiria destas histórias mirabolantes, e preferiria outro método. Na adoslescência, possuía outra medida.

Quando chegamos, ainda bastante cedo, lá estava sua tia, com um colega da facção. Meu amigo foi até ela, enquanto eu e o outro esperávamos a uma certa distância. Voltou, e disse que estava tudo certo. Não havia, porém, entradas, que, na época, eram papeis com o nome do jogo, do campeonato, o ano, o símbolo da FERJ – ou o símbolo da FERJ era apenas em partidas do Estadual?

Postos dentro de um camburão da PM, aquele dos anos 90, onde se lia Patamo, subimos pela rampa principal, sendo deixados no anel das arquibancadas. Não houve algemas, e a peça foi assim encenada fora dos padrões do Realismo. Quando descemos do carro, fomos postos numa sala da torcida, com bandeiras e surdos, onde se lia „Nação Rubro-Negra“, até que sua tia viesse buscar-nos. Não sei dizer se algum outro tricolor haja conseguido pisar ali, antes ou depois de mim.

A turma é mesmo da fuzarca

Neste mesmo ano, na primeira partida da final do Campeonato Carioca, fui para o jogo com o valor do ingresso, 10 mil cruzados ou cruzeiros, e o da passagem. Tinha, em mãos, 12 mil. Aproximo-me da bilheteria, entro na fila, e caio com o anúncio: a entrada custa 15 mil. Como não divulgaram isso? Ou divulgaram e, eu, desleixado com o jornal, não me dei conta? Voltar para casa?

Havia uma praxis muito comum, na época, feita por pedintes de trocados, que, segundo eles, juntavam o recebido para comprar um ingresso. Sem experiência no ramo, esta foi, posso dizer, minha primeira atividade de rendimento. Nenhum êxito. Ninguém me deu um centavo sequer, e até um companheiro de escola, que apareceu com o pai, negou-me ajuda. Mas cabia lutar, até que minha derrota fosse decretada pelo apito inicial.

Não sei explicar o motivo, mas apareceu certo rapaz, vendendo uma entrada por 12 mil. Joguei tudo na mão dele, empurrando meus concorrentes, e entrei no estádio. Verossimilhança alguma. Após o jogo, com um 0x2 na cabeça, subi no ônibus, pulei a roleta, e voltei para casa.

Pra você

No dia do aniversário de Oswaldo de Olveira, então treinador do Fluminense, os cariocas recebiam a campinense Ponte Preta, pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 2001. Dessas coisas bastante nossas, neste ano a disputa não incluía jogos de ida e volta, mas apenas uma ida, que dava ao time da casa a vantagem de jogar pelo empate no tempo normal e na prorrogação. Coisa mesmo de doido.

Era meio de semana, quarta ou quinta, e esnobei a presença da torcida. Fiquei sem ingresso, ao ter chegado tarde. Mas, e isso fica claro, não ter ingresso não significa virar as costas e voltar para casa. Busquei cambistas, negociar, algum modo.

Rodei o Maracanã pelo menos três vezes. O mercado negro tinha sido extinto. Ou falido. Começava a conformar-me com a perda da invencibilidade. Não havia solução. Bilheterias fechadas, cambistas ausentes. Pular o muro? Roubar credencial de imprensa, de vendedor ambulante?

Entrei com o jogo em andamento, após passar por uma revista policial mais forte, quando ingressava com os integrantes da Força Flu, com bandeiras e peças de bateria. Nunca fui sócio de torcida organizada, mas um rapaz me ofereceu um papel, que ele chamou de entrada, por 7 reais. Linda vitória, com um lançamento inesquecível de Paulo César, o lateral-esquerdo, para Magno Alves.

Acréscimos

Ainda enfrentei desafios para um Fla-Flu de 2005, final da Taça Guanabara, quando um cambista queria um valor que eu não tinha, e, no final, achei outro, mais humano, que vendeu a mim e a minha ex-namorada ingressos para as antigas cadeiras comuns. Com um gol de cobertura de Preto Casagrande, saímos de lá com faixa e tudo, comemorando os 4×1.

Buenos Aires também me deixou das suas, num River-Boca, em 2006. Após 10 horas na fila – da meia-noite às 10 da manhã – saí sem ingresso, e mesmo assim fui ao jogo, num acaso que conto alhures.

Agora, na Itália, parto para o meu mais novo desafio. Após o prefeito de Bergamo, cidade onde joga o Atalanta, pela Série B, decretar que, para partida contra a Novara, apenas cidadãos do Estado da Lombardia podem adquirir ingresso, tentarei, usando métodos cronísticos, ver esta partida, mesmo sem ser um ” lombardo”, na segunda à noite.

Em dois dias.

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